Tudo ao mesmo tempo agora

Ana Maria Machado

Ilustraes Rogrio Soud

Editora tica -  1997

Literatura brasileira juvenil

Editor
Fernando Paixo
Editora Assistente
Carmem Lcia Campos
 Assessora Editorial
Rosemary Pereira de Lima
Preparao de originais
Luciana de Carvalho Abud
Suplemento de leitura
Maria Tereza Arruda Campos
ARTE
Editor de Arte
Marcelo Arajo
Ilustraes 
Rogrio Soud
Editorao eletrnica 
Daniel Abreu Gonalves
Impresso e Acabamento
W ROTH

ISBN 85 08 06592 2

1997
Editora tica
Rua Baro de Iguape. 110  CEP 01507-900 Tel.:(011)278-9322 "Caixa Postal 2937 CEP 01065-970  Fax: (011) 277-4146 End. Telegrfico "Bomlivro"  So Paulo - SP Internet:
http://www.atica.com.br e-mail: editora @ atica.com.br


imagine que algum da sua classe seja obrigado a passar cola para dois colegas. O professor percebe e pune os trs. O que voc faria? Defenderia os trs? S quem
foi forado a passar cola? Ou ficaria quieto, pois voc no tem mesmo nada a ver com essa histria?
H momentos na vida em que ficamos realmente contra a parede: fazendo ou no fazendo nada, somos forados a nos posicionar.
So situaes assim que Marina, Rafael e seus colegas de prdio e de escola - o Ea, como chamam o colgio onde estudam - enfrentam nesta histria. Mas  Jaj quem 
mais se preocupa com a justia e a injustia, quem tem ou deixa de ter razo. Filho do porteiro do prdio, amigo fiel e surfista competente, bolsista do Ea, ele 
por diversas vezes se depara com verdades difceis, daquelas que nos
pem mesmo para pensar: ser que  justo?
No ritmo das emoes cotidianas da turma - momentos
bons e ruins, de comemorar ou de preocupar, os namoros que "rolam" e os que no "rolam" -, somos envolvidos em questes que so ou podem parecer injustas, mas acabamos 
recompensados pela solidaridade de muitos gestos em que se soldam as amizades, os afetos.
Muita emoo, muita polmica: Ana Maria Machado sabe falar com nosso corao ao mesmo tempo em que trava um dilogo vivo com a atualidade, em especial com a realidade 
brasileira. Afinal, mais que nunca  tempo de falarmos em justia, solidariedade, tica, integridade, verdade. Voc no acha? Ento, qualquer que seja sua resposta, 
acompanhe de peito aberto esta histria.


A Rafael, Tiago, Lucas e Victor, que dominam os segredos das ondas. A Diogo, companheiro em uma dura busca de justia.


SUMRIO
1. Mink e Monk
2. Lunetas xeretas
3. Juju volta a atacar
4. Na hora da raiva
5.  s querer?
6. Cruzeiro do Sul em Cerro Azul
7. Uma coisa de cada vez
8. Fome e sede de justia
9. Falatrio de aniversrio
10. Um presente da memria
11. Uma surpresa e um monte de beijos       
12. Um ano com trs Natais

.1 Mink e Monk

"Uma coisa de cada vez
Tudo ao mesmo tempo agora" Tits
Amo novo, agenda nova.
A do ano passado j ia se juntar s anteriores, no fundo da prateleira de cima do armrio. Mas antes era hora de abrir a que ganhara no Natal e se preparar para 
o ano que comeava.
Marina colou logo um adesivo bem escolhido no dia 8 de setembro. Pegou um jogo de canetas novas, que tambm tinha ganho, e escreveu com letras caprichadas, cada 
uma de uma cor: MEU ANIVERSRIO. Era por onde sempre gostava de comear suas agendas. Dava sorte.
Depois, em letras menores, marcou o aniversrio do pai, o da me e o do Rafael - e colou em cada pgina uma estrelinha. Achou pouco, procurou tambm uns minicoraes 
em outra cartela, viu que ainda tinha bastante, tirou trs e distribuiu pela famlia. Hesitou um pouco na folha do irmo... mas, enfim, mesmo que o Rafa no merecesse 
muito, a agenda merecia. Ficava mais bonita assim. E ela sempre podia fazer como no ano passado, quando na
primeira briga que teve com ele colou uma caveira em cima da florzinha que marcava a data. Mas ultimamente ele estava menos implicante. Quem sabe se este ano no 
ia ser melhor?
At a, eram os aniversrios que sabia de cor. Agora vinham os outros - avs, primos, amigas. Abriu a agenda velha para conferir e ir copiando. Acabou levando um 
tempo relendo coisas que tinha anotado no outro ano, lembrando de tristezas e alegrias, raivas e gargalhadas, fatos e emoes que aquelas frases traziam de novo. 
Poucas frases, que ela no era boba de ficar fazendo dirio e se arriscar a algum pegar, ler e ficar sabendo de toda sua vida. s vezes marcava alguma coisa num 
cdigo, mas em geral eram s frases curtas e lembretes. Mas ela entendia. Era o que importava.
Era s olhar, por exemplo, FESTA DA MANUELA, com aquelas cinco estrelinhas do lado, e aquele exagero de pontos de exclamaes (***** era sempre a lembrana de algum 
garoto superdemais). Lembrava bem da empolgao que teve quando conheceu na festa o Renato, primo da Manu, e eles danaram, conversaram na varanda, ficou um clima 
gostoso. Mas quando, numa pgina da semana seguinte, escreveu O GATO  GALINHA e fez o desenho dos dois bichos com um sinal de igual entre eles, j tinha descoberto 
que pelo menos umas trs meninas da turma tinham cado na mesma conversa, acreditado nele, imaginado que eram especiais. E o estouro dos encantos do Renato ficou 
para sempre marcado na agenda: uma fileira de bombas desenhadas na ltima linha dessa mesma pgina, redondas e pretas, com o pavio saindo para a direita e um monte 
de risquinhos em volta, como se fossem raios. No precisava de muitas frases. Para Marina, a histria daquele encontro e desencontro estava toda ali, naquelas duas 
pginas. Viradas, ainda bem. No gostava de dar espao para quem no merecia. Nem na agenda nem na vida mesmo. S que s vezes, na realidade, no era to fcil. 
Mas no custava tentar. De tanto dizer que certos lances (ou pessoas) no tinham importncia, quem sabe se um dia no acabava convencendo a si mesma? E aprendendo 
a se machucar menos.
Mas essas eram coisas que s iam sendo escritas e desenhadas  medida que iam acontecendo. Agora, no comeo do ano, era s mesmo marcar o que estava previsto. Aniversrio. 
Carnaval. Volta s aulas. Feriado. Logo na semana seguinte, Dentista. Ainda faltavam uns dez meses para poder tirar o maldito aparelho
 - se  que a doutora Elisabeth no ia inventar de deixar mais tempo, como tinha acontecido com a Cntia. No, no dava nem para pensar nisso...
Melhor voltar  agenda. Primeira pgina. Nome completo. Apelido? No tinha. Colgio: punha tudo, Ea de Queirs? Ou s Ea, como eles sempre diziam? Resolveu escrever 
o nome todo, ao menos uma vez no ano. 8a srie, turma 81. Quer dizer, no tinha certeza, ainda no tinham distribudo as turmas, mas devia ser, porque era 71 no 
ano que tinha acabado dois dias antes. Marina foi preenchendo. Depois, endereo. Rua, nmero, apartamento, telefone, cdigo postal. A vinha uma parte de dados pessoais. 
Os caras que fizeram a agenda queriam saber tudo, altura, peso, perguntavam at a cor predileta... No tinha nada a ver. Ela teve uma idia. Pegou uma etiqueta branca 
lisa, cortou em tirinhas e foi cobrindo o que j estava impresso na agenda, deixando s as linhas para preencher. Resolveu completar o endereo  sua moda. Bairro, 
cidade, estado. Foi continuando. Brasil. Amrica do Sul. Hemisfrio Ocidental (para alguma coisa serviram aquelas aulas de geografia do Vicente, havia milnios...). 
Terra. Sistema Solar. Galxia... como chamava nossa Galxia? Tinha algum nome especial? Melhor pular, passar direto para Universo. Ser que havia alguma outra coisa 
que ela tinha esquecido?
Caneta na mo, levantou os olhos da agenda e ficou, meio pensativa, olhando pela janela. Apagou a luz e foi contemplar as estrelas. Com as luzes da cidade acesas, 
no dava mesmo para ver muita coisa no cu, s um ou outro ponto mais brilhante, e um fiapinho de lua. Ser que, em outro lugar, outra menina nessa mesma hora estava 
fazendo a mesma coisa?
Outro menino? Ser que, exatamente nesse mesmo lugar, em algum tempo muito antes, uma outra pessoa que morasse por ali tinha ficado tambm assim olhando as estrelas 
e suspirando por alguma coisa que queria? Muito antes de que existissem essa cidade e esse prdio? Algum bem jovem, da idade dela? Uma sinhazinha, uma ndia, uma 
escrava?
s vezes, o pensamento de Marina saa viajando assim, to longe que at dava tontura... Mas no conseguia deixar de dar graas a Deus, de achar uma maravilha e um 
espanto que no meio de um espao infinito, num tempo eterno, justamente naquela hora e naquele lugar ela estivesse existindo. Ela, Marina Campos Neves. Bem desse 
jeito que era. Vivendo coisas to importantes como uma agenda nova ou a lembrana de um gato na varanda.
Ou ser que isso no tinha importncia nenhuma? Para ela, tinha, claro! E devia ter para o mundo inteiro tambm. Porque, se na natureza tudo o que existe acaba se 
ligando ao resto, como todo mundo est farto de aprender quando estuda ecologia e meio ambiente, ento deve ocorrer o mesmo com as pessoas de uma cidade, de um de 
pas, de uma poca. Qualquer coisinha que acontece na vida de uma acaba mexendo com a vida das outras. Se ningum tivesse agenda, por exemplo, ia ficar uma baguna, 
as pessoas esqueciam os compromissos, deixavam os outros esperando, dava a maior confuso. Se ningum comprasse agenda, os fabricantes iam ter prejuzo, muita gente 
ia ficar desempregada com as fbricas fechadas, ia ser preciso derrubar menos rvores para fazer papel... epa! Ser mesmo? Ser que at a natureza ia ser afetada 
por causa de um gesto -toa de uma menina sonhadora? Mas
tambm ia haver menos projetos de reflorestamento, menos rvores sendo plantadas... Ai, impossvel saber... Dava at cansao imaginar. Melhor ir dormir. Pouco depois, 
j deitada, Marina se lembrou de uma vez em que a turma toda do prdio tinha ficado olhando a lua pela luneta. No terrao da casa da Cntia, que morava no ltimo 
andar e tinha um pai advogado mas com mania de astronomia - ou um irmo que gostava de espiar as pessoas dos prdios vizinhos pela janela, como o Rafa garantia. 
Naquela noite, Marina tinha perguntado:
- Ser que tem algum com uma luneta olhando tambm para ns?
- Na lua? - estranhou Cntia. - Ou em outros prdios?
- Em qualquer lugar...
- Vai ver, tem um bando de marcianos: Mank, Menk, Mink, Monk e Munk... - implicou Rafael. - Todos chorando e chamando a me, com medo dessa viso horrvel que esto 
tendo, desse monstro de sorriso metlico, com essa sua boca cintilante virada para eles.
Ridculo aquele irmo! No dava nem para a gente conversar a srio... Vivia encarnando no aparelho dela. Como se ele mesmo fosse alguma perfeio, algum modelo de 
beleza, com aquele nariz grande e aquela cara toda cheia de espinhas. S tinha mesmo eram os dentes certinhos, sem precisar de aparelho. O maior azar, nesse ponto 
- Marina puxou  me, ele saiu ao pai.
Mas agora, antes de dormir, Marina lembrava da conversa daquela noite. De vez em quando pensava nisso. Como seria a sua vida de todo dia, para quem conseguisse ver 
de fora, de longe? Claro que
sabia que esse bando de marcianinhos no existia, olhando para ela e seus amigos o tempo todo. Mas o que  que uma Mink imaginria ou um Monk inexistente iam pensar 
dela? O que ser que eles iam achar da vida daquelas pessoas todas, morando empilhadas numas caixas de cimento, um prdio de trs andares a dois quarteires da praia, 
numa cidade brasileira to cheia de gente? Como ser que eles viam aquelas cinco famlias? A da Cntia, na cobertura, ocupando todo o terceiro andar, com seu terrao 
ajardinado onde at tinha luneta... A dela mesma, no 202, com o Rafael no quarto dele ouvindo um som alto (na certa vendo revista de surfe ou de mulher pelada), 
e ela ali colando adesivo em agenda. A do Augusto Csar e da Mirella Morei, no 201, com toda certeza s com a empregada em casa quela hora, artista sai muito, e 
os dois agora estavam com uma pea em cartaz e trabalhando na novela. A do sndico, seu Euclides e dona Ceclia, bem embaixo do apartamento dela, no 102, com aquela 
crianada, at beb pequeno que s vezes chorava de noite. A da Bia e da Marta, no 101, que dormiam cedo porque o colgio delas era bem mais longe e elas madrugavam 
para pegar o nibus...
Muito assunto para Mink e Monk se distrarem...


2. Lunetas xeretas

Se Mink e Monk existissem mesmo e se dedicassem ao estranho esporte de xeretar a vida alheia, sem dvida no iam ter se divertido muito naquele ms de janeiro. No 
aconteceu nada de especial no prdio.
Vero era assim mesmo. A famlia do sndico tinha sado de frias. Os pais de Bia e Marta aproveitaram que as filhas no tinham aula e mandaram as duas passar uns 
tempos com a av, num stio no interior. O casal de atores do 201 passou o ms todo trabalhando. S Marina Rafael, Cntia e mais o Antnio, irmo dela, ficaram por 
ali mesmo, naquela vidinha mansa de janeiro, com muita praia, cinema, lanche com os amigos, uma ou outra festinha, um livro de vez em quando, umas revistas, algumas 
idas ao shopping, montes de telefonemas.
Talvez o mais interessante para Mink e Monk vfosse um apartamento pequenino, de que Marina nem tinha lembrado. Sem jardins nem varandas. Na verdade, nem mesmo com 
janela normal, s com
basculante. No andar do salo de festas e do playground, atrs da copa e de um lavabo, num quarto-esala sem muito espao, morava a famlia do porteiro. Seu Nilson, 
dona Jandira e o filho deles, Jalson. O Jaj, que Marina at conhecia bem, porque ele era bolsista no Ea e estavam na mesma turma. Mas no chegavam a ser amigos, 
realmente. Amigo mesmo ele era do irmo dela. Apesar do Rafael j estar no segundo grau, os dois iam e vinham todo dia do colgio em altos papos, saam no fim de 
semana para surfar antes de todo mundo acordar, eram do mesmo time de basquete na escola. Quase nunca iam a festas juntos, mas no perdiam um bom jogo de futebol. 
E tinham sempre milhes de assuntos. Ou, na opinio de Marina, um assunto nico: esporte. Coisa que no interessava muito a ela. Na certa foi por isso que nem lembrou 
de apresent-los a Mink e Monk.
Mas se os marcianos fossem esportivos no tinham como no descobrir o Jaj. Todos os meninos da vizinhana o conheciam.
Por causa dele, era um entra-e-sai permanente pela garagem do prdio at um depsito l no fundo, onde os moradores guardavam bicicletas, velocpedes, carrinhos 
de beb, pranchas de surfe. Era l que, com a autorizao de seu Euclides, o Jaj tinha instalado uma mesa com ferramentas e uma gaveta cheia de lixas e mais uma 
prateleira com resinas, parafinas, benzinas e outras misteriosas -inas... Era l que funcionava sua oficina de reparos de pranchas de surfe. Era l, enfim, que ficava 
o nico lugar daquele prdio onde, no vero, havia movimento permanente para atrair a ateno de eventuais lunetas xeretas.
Por isso  que, nos meses de frias, quando no estavam todos no mar ou na areia, a garagem do prdio virava uma sucursal da praia. Toda hora algum garoto entrava, 
mesmo que no precisasse de conserto algum. Vinha bater papo ou encontrar os amigos. Se a porta estava fechada, era s assoviar, para chamar o Jaj em casa. Num 
instante, ele assoviava de volta para avisar que j vinha. E se despencava escada abaixo, de dois em dois degraus, pulando os quatro ltimos de uma vez s. Nunca 
usava o elevador. No agentava esperar. Tinha sempre muita pressa.
- Por isso  que a gente chama ele de Jaj - explicara Rafael um dia. - Ele quer tudo, sempre, agora, para j, j...
- Pensei que era apelido de Jalson...
- No, primeiro a gente comeou a dizer que ele devia se chamar tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Mas era comprido demais. Acabou ficando Jaj.
E ficou mesmo.
Agorinha mesmo, nesse dia de fevereiro ensolarado e quentssimo, quando Marina estava na cozinha pegando um copo d'gua na geladeira e a campainha dos fundos tocou, 
antes mesmo de abrir a menina ouviu a voz do outro lado se identificando:
-  o Jaj!
Abriu a porta, ofereceu a ele o copo d'gua, foi chamar o irmo. Quando voltou, viu uma verdadeira reunio na porta da cozinha. A empregada, Zilda, conversava animadamente 
com Jaj e uma estranha, logo apresentada como Adriana.
- A Adriana  minha vizinha - explicou Zilda, sempre faladeira. - Ela trabalha de diarista e estava com um dia livre na semana e a eu lembrei que ela podia fazer 
uma faxina na casa da dona Mirella.
- U, a Nilce foi embora? - estranhou o Jaj.
- No, mas ela vai ter nenm, esqueceu? E daqui a pouco no vai mais agentar fazer servio pesado. Ento eu falei com a Adriana, que era para ela vir aqui e ver 
se dava uma fora. Mas no era para vir hoje, tinha que ser amanh, que  o dia da Nilce, para combinar com ela, porque ela  que tem que indicar algum para dona 
Mirella, que nunca que ia botar uma outra pessoa dentro de casa sem a Nilce recomendar e estar de acordo. E tambm no adiantava ser hoje, ainda mais a esta hora, 
porque a dona Mirella tambm no est e desse jeito no vai poder...
A Zilda era muito boazinha, mas quando comeava a falar sem parar deixava qualquer um meio tonto. Marina desligou mentalmente e foi saindo.
Na porta, esbarrou no irmo que vinha chegando, e ligou ligeiramente de novo, a ponto de ouvir o final do falatrio da Zilda:
- No vai adiantar nada essa pressa toda...
- O Jaj sempre tem pressa, Zilda, at parece que voc no sabe - disse Rafael.
- , mas desta vez voc quebrou a cara. No era de mim que elas estavam falando - riu o Jaj. - E se voc no gosta da minha pressa no vai querer saber que a quilha 
da sua prancha j est pronta e eu acho que ficou perfeita. Agora  s testar...
- J? - Rafael nem tentou disfarar a surpresa.
- J... j mesmo - confirmou Jaj, sempre
rindo.
- Vamos l ver.
Os dois desceram. E Marina tratou de ir para seu quarto, antes que Zilda a pegasse de novo para ouvir o resto daquela histria sem fim, enquanto tocava a campainha 
da casa da vizinha (onde ningum atendia) e explicava  tal de Adriana:
- ... mas tem que ser amanh de manh bem cedo, no mximo umas oito horas, porque  o nico dia em que dona Mirella fica at essa hora, nos outros dias ela sai sempre 
muito cedo, ela agora est fazendo gravao, sabe? Ela  artista de televiso,  a Rosy da novela das 7, sabe?, aquela meio maluca que fica querendo entrar na casa 
da Doralice para ir l no quarto dela e espiar dentro da gaveta para ver se encontra a carta do Santiago, mas isso  s na novela, porque aqui a dona Mirella nunca 
ficou querendo entrar em casa dos outros, ela at que disfara bem, ou ento  muito...
Ufa! Porta fechada. Falatrio por falatrio, melhor bater papo com uma amiga. Marina foi para o
telefone. Ligou para Cntia. No estava. Bia e Marta? S voltavam depois do carnaval, para o comeo das aulas. Olhou na agenda, foi correndo as letras iniciais dos 
nomes das colegas da escola. Logo na segunda letra, deu sorte com Bebei.
- Oi, Bebei,  Marina. Tudo bem? O que  que voc tem feito? No, acabei ficando mesmo por aqui... Nada demais, s fui  praia, fiquei por a meio de bobeira. E 
voc? Verdade? Nem acredito! O irmo da Ana Cludia? E onde foi que voc encontrou com ele? Escolhendo disco de quem? Nunca ouvi falar. Pensei que ele nem gostava 
de msica, quando a gente foi estudar l naquele dia, ele ficou reclamando o tempo todo... Voc acha mesmo?... No, sei l, no lembro direito, mas acho que a gente 
no estava fazendo tanto barulho assim, estava s discutindo o trabalho de grupo... No, est certo, deu para ver que ele era um gato, mas achei que era um implicante 
que nem meu irmo... O qu? Voc no acha o Rafael implicante? Isso  porque voc no convive com a pea, s v de vez em quando no colgio. Aquilo  um...
E o que  que voc vai fazer no carnaval? Ah,
eu j resolvi, eu vou...
Blablabl, blablabl...
Se Mink e Monk, alm de lunetas xeretas, tivessem microfones direcionais daqueles bem sensveis, iam ter  que desligar e desistir, para no criar calo no ouvido. 
Porque nesse quentssimo dia de fevereiro, ainda a dez dias do carnaval, naquele apartamento 202 a duas quadras da praia, a soma da conversa fiada na cozinha com 
a conversa jogada fora no telefone era capaz de abafar o som de qualquer bateria de qualquer bloco ou escola de samba num eventual ensaio. No dava para ficar prestando 
ateno. Mesmo que, nos dois casos, as duas conversas acabassem se encaminhando para o mesmo assunto,
talvez at interessante para algum eventual turista interplanetrio:

3. Juju volta a atacar

- no quero vocs duas juntas. Parecem duas matracas. Em minha aula, tem que sentar cada uma num canto, seno fica um tititi s e ningum consegue prestar ateno 
em nada. Podem ir trocando de lugar, j. Vamos... Cntia passa para a fileira da parede. E a senhora, dona Marina, pode tambm ir mudando. Troque com a Solange.
O Veloso era sempre assim. Todo duro. Parecia que tinha um prazer sdico em separar os amigos. J era professor deles desde a quinta srie e conhecia todo mundo. 
Ainda mais com aquela mania de mandar fazer redao indiscreta. Umas duas por ms. Tipo "Se eu pudesse...", "Autobiografia", "De onde venho, para onde vou", ou "Mudanas 
que o mundo precisa". Por mais que no quisessem, os alunos acabavam se revelando. E o Veloso ficava sabendo. Quer dizer, no abusava: guardava segredo, no entregava 
a ningum o que sabia. Mas conhecia a turma por dentro, pelo avesso. E toda vez que tinha trabalho de grupo separava as galeras, toda vez que uma dupla
de amigos se sentava perto na aula ele punha um para cada lado. Vinha com uma conversa de que era para desmanchar os grupinhos fechados. Mas at parecia que era 
de implicncia.
Marina recolheu o fichrio, a mochila, os livros, o estojo de nilon todo recoberto com sua coleo de broches de bichinhos (que ela fazia questo de dizer que no 
eram broches, eram pins e buttons), tudo o que j tinha espalhado. Passou para a carteira ao lado e ficou entre Solange e o Jaj. O professor fez mais umas mexidas, 
botou atrs dela a Andreia, uma aluna nova que vinha transferida de Braslia, passou o Jaj um lugar para trs. Marina acabou ficando do lado do Cludio e atrs 
da Bebei.
Mas o Veloso nem deu muita chance para eles se acomodarem, comeou logo a dizer que j tinham perdido muito tempo, que com o carnaval muito tarde as aulas tinham 
demorado a comear. Depois, anunciou o que iam estudar nesse ano, falou que era tudo muito importante, porque eles estavam terminando o primeiro grau, podia ser 
que houvesse algum aluno que mudasse de colgio ou parasse de estudar ("quem sabe se uma das meninas no encontrou um prncipe encantado e vai casar para viver suspirando 
eternamente, trancada em sua torre de cristal?", o Veloso fazia umas piadinhas assim, bem por fora, em que s ele achava graa), mas o caso  que eles tinham que 
consolidar muito bem tudo o que tinham aprendido de Portugus para poderem continuar pela vida afora escrevendo, lendo muito, interpretando com esprito crtico, 
porque ento iam ter condies de estar sempre aprendendo mais, de crescer sozinhos, e ter orgulho do que eram capazes de escrever... Essas coisas. Uma daquelas 
conversas compridas de professor.
Marina tentou olhar pela janela, ver o ptio l embaixo. No dava, estava longe. Quem estava com um timo ngulo de viso era o Jaj, mas era puro desperdcio. Ele 
sempre prestava a maior ateno na aula, no ia ficar olhando l para fora (vai ver, era at por isso que o Veloso tinha mandado o Jaj sentar naquele lugar). Marina 
achava meio careta esse jeito do Jaj na escola, muito calado, estudioso, um caxias. Parecia que ele sempre queria ficar bem com os professores.
- Voc  mesmo uma panaca, no entende nada. Nem parece minha irm... - disse o Rafael uma vez, quando ela falou nisso. - O negcio  que para o Jaj essa bolsa 
no Ea  como um prmio, e ele no quer desperdiar. Uma chance de ouro para ele estudar num lugar com um ensino timo, ter professores maravilhosos, computador, 
laboratrio, um monte de recursos que ele no ia ter numa escola pblica.
- Panaca  voc, todo cheio de preconceito... Quem lhe disse que escola particular  melhor que escola pblica? S porque  paga?
- Eu no disse isso, Marina, no tora o que eu estou dizendo. No falei nada de todas as escolas. S que a gente sabe que esta nossa tem um bom ensino, no sabe? 
Mas  claro que tambm est cheio de escola particular que no presta, e deve ter muita escola pblica sensacional. Papai e mame mesmo... eles no vivem contando 
que sempre estudaram em escola pblica e foi maravilhoso?
- Pois ento? Por que  que voc veio com esse papo?
- S falei a verdade, o que toda hora sai na televiso e nos jornais, e a gente v em volta. No tempo deles pode ter sido maravilhoso, mas hoje em dia todo mundo 
sabe que, do jeito que o pas anda, as escolas pblicas esto muito sem dinheiro, os professores esto ganhando muito pouco... Ento tem uma poro de professor 
legal que vai embora, desiste. Ou ento eles faltam demais, porque trabalham em outro lugar ao mesmo tempo, toda hora os alunos ficam sem aula. Ou fazem tanta greve 
que os alunos  que acabam ficando prejudicados, no aprendendo nada. Sei l... S sei  que o Jaj d o maior valor a essa chance que ele est tendo e no est 
a fim de jogar fora. Por isso  que ele estuda desse jeito, no  para puxar saco de professor.  para ficar no colgio e aproveitar o que puder dos computadores, 
da biblioteca, dos laboratrios, da quadra de esportes...
- Principalmente da quadra de esportes... - ainda implicou Marina.
Mas logo viu que devia ser isso mesmo. A cara do Jaj. No desperdiar tempo, no se arriscar a perder o ano. Aquela histria de tudo-ao-mesmotempo-agora. De qualquer 
modo, s para no dar o brao a torcer, a menina deu um sorrisinho irnico para o irmo, encerrando o assunto:
- Est bom... Vou fazer de conta que acredito nessa perfeio do seu amigo sem defeitos...
Agora, na aula, lembrava dessa conversa. E pensava que Jaj sentado junto da janela era outro tipo de desperdcio - ele estava jogando fora a chance maravilhosa 
de olhar l para fora, observar o ptio, as rvores, as janelas das outras turmas... Mas sabia que Rafael tinha razo. E que, para quem tem que
batalhar muito na vida, uma boa escola faz mesmo a maior diferena. Na vspera mesmo, l no prdio, eles tinham visto outro exemplo. A tal da Adriana tinha vindo, 
afinal, fazer uma primeira faxina na casa dos vizinhos atores, para aprender como  que era e poder substituir a Nilce quando a outra fosse ter beb. Logo no primeiro 
dia de trabalho, estava toda contente mostrando a todo mundo (porque agora, pelo jeito, aquela assemblia na cozinha ia se repetir de vez em quando) que tinha conseguido 
com a patroa nova uma carta, atestando que ela trabalhava l e precisava botar o filho na creche. Devia ser duro mesmo ter que trabalhar e no ter com quem deixar 
a criana. Ainda bem que a Mirella era boa gente e colaborou com a tal carta assim de cara.
- De acordo, Marina?
A voz do Veloso interrompeu seus pensamentos. No sabia o que responder. Olhou em volta, disfarando. A Solange fazia sinais frenticos com a cabea, dizendo que 
sim. Marina entendeu e confirmou:
- Estou, sim. Acho que  isso mesmo.
- E eu posso saber por qu? - perguntou mais uma vez o Veloso.
Marina achou melhor no insistir. Deu um sorriso meio sem graa e confessou:
- No sei... S palpite.
- Claro que no sabe. Como sempre, estava no mundo da lua,  pensando na morte da bezerra. Ento no consegue nem saber se est de acordo com uma coisa to simples. 
Porque no sabe o que eu disse. Ento vou repetir. Eu disse que quero que todo mundo este ano leia pelo menos um livro novo por ms.
"Grande novidade", pensou Marina. "Ele pede isso todo ano..."
- Mas no quero que ningum se sinta obrigado a ler um livro que no queira - continuou o professor. - E vocs no so mais uns pirralhos, esto acabando o curso, 
tm que ter juzo e aprender a se virar na vida. Ento resolvi que desta vez vou deixar que cada um escolha o livro que quiser. Vou dar s uma lista de sugestes 
de autores e ttulos, para quem estiver sem idia. Na ltima aula do ms, cada aluno me entrega uma redao,  feita em casa, comentando o livro. Podem anotar a, 
pra isso  que serve agenda, no aceito redao atrasada e no vou ficar lembrando data da entrega a ningum. E no quero embromao! A nota vai levar em conta tambm 
os mritos de quem ler mais de um livro, a imbecilidade de quem escolher um livrinho idiota ou a preguia de quem s quiser ler meia dzia de pginas todas cheias 
de figuras... De acordo agora, Dona Desligada?
Claro. At que podia ser legal. O Veloso era duro, mas tinha boas idias. Rosnava desse jeito, mas no mordia, como dizia a Cntia. Quer dizer, era superexigente, 
mas aproveitava ao mximo o que os alunos faziam, reconhecia o esforo mesmo quando o resultado no era perfeito. E no exigia que todo mundo concordasse com ele. 
Tudo bem, esse novo esquema dele podia at ser bem interessante.
Jaj foi que ficou todo animado. Na volta para casa, veio comentando com Rafael.
- Po, cara, se voc me emprestar alguns daqueles livros que tem l na sua casa, eu vou me dar superbem...
- Claro, Jaj.
- Posso ir l hoje escolher o primeiro? Marina, ouvindo o pedido, caiu na gargalhada: -J? J? Jaj... Mas logo na primeira semana de
aula...
- Melhor, n? - explicou Jaj. - A gente ainda no tem muita matria, eu leio logo, escrevo logo, e posso comear em seguida a ler o do ms que vem...
- Pelo jeito - brincou Rafael - antes da Semana Santa voc j vai ter um banco de redaes, com material para o ano todo... Quem sabe at d para descolar alguma 
graninha, vendendo umas redaes  extras para quem  no  tiver tempo de fazer...
Jaj riu:
- Sabe que at que no era m idia? Do jeito que eu leio rpido, era capaz at de conseguir juntar dinheiro para comprar aquele som maneiro que eu ando querendo...
Agora esse tal som era a mania dele. Tudo comeou quando os pais compraram um sof-cama e trocaram de lugar com ele. Passaram a dormir na sala, deixando o quarto 
para o filho, que pela primeira vez tinha um espao todo seu, com uma porta que ele podia fechar sem ningum entrar. At Marina, que nunca tinha ido na casa dele, 
sabia cada detalhe de como era esse quarto, de tanto ouvir Jaj e Rafael conversando. Tinha pster de altas ondas na parede, tinha estante de livro, tinha ferramenta 
e modelo de barco e avio, de armar. S no tinha um som. Ainda. Porque no havia a menor dvida de que o Jaj ia conseguir logo. Em pouco tempo mesmo...
- Dependendo de quanto voc cobrar pela redao, eu at que posso me interessar... - disse ela, de brincadeira.
Jaj ficou todo sem graa e se explicou:
- Desculpe, Marina, mas eu no estava falando srio. No leve a mal, mas eu nunca ia poder fazer uma coisa dessas...
- E posso saber por qu? No est a fim de ajudar ningum, ?
Muito srio, ele foi definitivo:
- No.  que no est certo. No  justo. Rafael caiu na gargalhada:
- Juju volta a atacar! Ju-ju! Ju-ju! Ju-JuL.
Os trs riram. E como j estavam chegando em casa, o assunto morreu a.
Mas ningum  obrigado a saber do que estavam falando e a entender a piadinha, que, na verdade, s se explica por uma coisa que acontecera um ano antes. Vale a pena 
contar, at mesmo porque  um timo jeito de conhecer um pouco mais o Jaj. No comeo da 
stima srie, o Z Eduardo, professor de Educao Fsica, reuniu no ptio todos os alunos, da quinta  oitava, e explicou que no segundo semestre eles iam participar 
de uns torneios intercolegiais, jogando vlei, basquete e futebol. Por isso, iria logo dividir todo mundo e preparar os diferentes times, para o ano todo. Ia haver 
uma equipe A (com os melhores jogadores), uma equipe B (com os bons, que podiam ficar na reserva e eventualmente substituir algum da A) e depois vinham a C, a D, 
quantas fossem necessrias para acomodar todos os alunos, agrupando os que no tinham mesmo chance de ir defender o colgio numa disputa externa. Todo mundo ficara 
na maior animao, falando ao mesmo tempo, comentando preferncias, um grande tumulto. De repente, ouviu-se o apito do Z Eduardo pedindo silncio. Em seguida, ele 
disse:
- Acho que o Jalson ali est meio nervoso, querendo falar e ningum deixa. O que ?
Era verdade. O Jaj estava exaltado. No meio de um grupo, aos berros, e os outros ainda berravam mais. O maior bate-boca. Com o silncio, ficou todo mundo olhando 
para ele. O professor insistiu:
- Vamos, o que est acontecendo?
Todos olharam para o Jaj ao mesmo tempo. O colgio inteiro reunido no ptio, j pensou? S esperando ele responder... Ele ficou to nervoso que tremia, suava frio 
e nem conseguia falar. Desatou a gaguejar:
- No  ju-ju-ju-ju-ju-...
E no saa disso.
O pessoal foi prendendo o riso, e ele l:
- ...ju-ju-ju...
Estourou uma gargalhada s, de uma vez, com toda fora, feito trovoada no final de um dia abafado de vero.
A mudou. Porque ele ficou to furioso que avanou pelo meio de todos os colegas, foi at junto do Z Eduardo, pegou o apito pendurado no pescoo dele, deu umas 
tremendas apitadas at os outros ficarem quietos de espanto e comeou:
- O que eu quero dizer  que, me desculpem, mas assim no  justo. Quem no joga bem e est num colgio, numa aula de Educao Fsica, tem  que aprender a jogar. 
No tem que ser descartado logo no comeo do ano.
Depois desse comeo, fez um verdadeiro discurso. Disse que concordava com a idia de que na hora do torneio o colgio ia ter que ser representado pelos melhores 
jogadores, com chance de ganhar. Mas no achava certo que esses jogadores j ficassem escolhidos no comeo do ano. Primeiro, porque tirava o estmulo dos outros 
que no iam se esforar para crescer, pois estavam mesmo de fora. Segundo, porque um colgio no  um clube, existe  para ensinar e dar chances iguais para todos 
se desenvolverem. Terceiro, porque... a essa altura nem d mais para lembrar de tudo. Mas era um monto de argumentos. E sempre voltava a dizer as mesmas palavras 
que usou no comeo e na concluso.
- Desculpe, mas no acho justo...
Ficou a maior confuso no ptio, todo mundo discutindo o assunto, sem se chegar a nenhuma concluso:
- Isso  a maior babaquice que eu j ouvi. Enquanto a gente estiver dando chance pra todo mundo, os outros colgios esto treinando e vo dar a maior surra na gente...
- Nada disso, o Jaj est certo!
- Certo coisa nenhuma! Onde j se viu perder tempo com perna-de-pau?
- Ah, ? E se os outros professores resolverem fazer o mesmo? Quem  bom em matemtica vai em frente, os outros que se danem... Quem j gosta de ler ganha livro 
bom, os outros esto dispensados... est certo, ?
-  o mesmo que no convidar pra uma festa quem no sabe danar. Como  que a gente vai aprender?
- Isso  conversa de quem no sabe jogar!
- Ah, ? Ento como  que saiu logo da cabea do Jaj? Est esquecendo que ele  o cestinha e o artilheiro do colgio, o nico cara que sempre acaba entrando na 
equipe de basquete, na de vlei e na de futebol?
- Nunca vi besteira to grande!
- Gente, que absurdo!... Vocs esto querendo que o Ea no se classifique, ? S pra dar chance a quem  ruim? Isso  o maior egosmo, vocs no tm amor nenhum 
ao colgio, s pensam em vocs mesmos...
- Egosta  voc, que tem esse tamanho todo e se garante! Mas como  que fica quem no tm? Os menores nunca vo ter chance, ?
Etc. etc. etc. A discusso levou a manh inteira. Alis, o prprio Z Eduardo incentivou, parecia estar achando a maior graa e se divertindo muito com tudo aquilo. 
Props at que todas as turmas continuassem debatendo o assunto durante a semana, fizessem reunies e "elaborassem uma pauta de sugestes com propostas para a questo". 
Assim mesmo, nesses termos. 
Por causa de uns times de colgio!
No sbado seguinte, quando todo mundo se reuniu no ptio outra vez, foi feita uma votao. A proposta vencedora (por grande maioria) era de um garoto da quinta srie 
e sugeria que se fizesse "como a gente sempre faz quando professor no se mete". Ou seja, o Z Eduardo escolheu os melhores jogadores para serem capites das equipes. 
Eles tiraram a sorte para ver quem era o primeiro, o segundo e assim por diante e foram selecionando seus jogadores. Cada um dizia um nome, depois era a vez do 
seguinte e a escolha ia rodando. No final, havia vrios times equilibrados, todos com alguns bons jogadores (escolhidos logo) e alguns bem ruinzinhos (os encalhes 
do final). E ficou combinado: todo o primeiro semestre ia ser assim. S no comeo de agosto  que o professor escolheria entre todos os alunos as selees do colgio 
(por esporte e faixa etria), que iam passar a ter treinamento intensivo para o torneio.
Essa confuso toda teve duas conseqncias. A primeira  que, pela primeira vez em sua histria, o Ea conseguiu estar entre os quatro finalistas do torneio intercolegial 
em todas as modalidades que disputou. A segunda  que o colgio inteiro ficou sabendo que o Jaj tinha mania de justia. E desde esse dia muita gente passou a chamar 
o Jaj de Juju ou de Justiceiro. Pelo menos, em algumas ocasies.

4. Na hora da raiva


Jalson acabou de passar a flanela no trofu e o colocou de novo na prateleira. Era o terceiro que ganhava, alm das medalhas que j vinha juntando com o time de 
basquete do colgio. Mas este era o mais bonito. De resina azul-esverdeada, com o formato de uma onda se quebrando. Bem como sempre sentia no mar, uma crista de 
espuma ameaando se quebrar por trs dele, quando deslizava para a areia, em p na prancha, pernas flexionadas dando a direo, braos controlando o equilbrio, 
depois de ficar um tempo esperando uma onda boa.
Agora estava ali, s a forma, dominada - uma onda paradinha, na prateleira. Entre outros dois prmios: um tambm de resina, com forma de prancha em p, e mais uma 
taa de metal brilhante com a inscrio Campeonato Estadual Categoria Jnior, Segundo Lugar. Mas desta vez, a onda azul, foi um prmio muito especial. Alm do trofu, 
havia tambm um cheque. E, de repente, muito antes do que esperava, ele agora ia ter condies de comprar o som
que queria. Sem gastar as economias. E ainda juntando a elas uns trocados, para alguma outra coisa mais tarde. Talvez uma prancha nova.
Sabia que levava o maior jeito e surfava bem. Era o esporte que preferia, mais que qualquer outro. No dependia de receber bem a bola, de estar numa equipe especial. 
Era s com ele, o mar, o vento, o jeito do cu. E adorava os amigos do surfe, uns dando fora para os outros, todos se fazendo companhia. Tinha horas que pensava 
em dedicar a vida ao surfe, a srio. Treinar mais para ganhar torneios internacionais. Arrumar um patrocnio para poder disputar campeonatos em outros lugares, no 
Equador, na Costa Rica, at no Hava e em Bali, quem sabe? No era um sonho impossvel, com suas qualidades de surfista. Sabia disso. Mas no durava muito. Como 
todo esporte, um dia ia ter que parar. E a? Como  que ia se arranjar? Profisso: ex-surfista. No ia a lugar nenhum. Ainda por cima, filho de porteiro e de caixa 
de supermercado. Faltava capital. No dava nem para fazer como alguns outros, que iam virando empresrios ligados ao surfe e fazendo uma vida profissional relacionada 
ao esporte. Abriam seus pequenos negcios - uma barraca de sanduches na praia, uma oficina de reparos de pranchas, uma pequena confeco de moda de vero, uma lojinha 
de material esportivo, uma galeria de decorao com objetos e mveis artesanais trazidos da Indonsia cada vez que iam l pegar ondas...
Jaj sabia que, por enquanto, ia dando para ele viver com a oficina de pranchas. Mas era pouco. Coisa de jovem. Depois, ia precisar se garantir mais, ajudar em casa, 
pensar no futuro. Tinha que estudar. E muito em breve trabalhar com carteira assinada,
previdncia, fundo de garantia, essas coisas. Arrumar um emprego com salrio fixo. E horrio tambm fixo, que jeito? Mas, enquanto podia, tentava adiar ao mximo 
esse dia. E se preparar para ele.
s vezes, at esquecia, como se tivesse muito tempo. Fazia como os colegas. Deixava para pensar nisso depois. Mas era muito raro. Quase sempre, sabia que j estava 
chegando a hora de resolver e mudar de vida. Um aperto no corao, s de pensar. Talvez esse fosse o ltimo ano. Pensava muito no que ia fazer. Os outros, no. Seguiam 
direto para o segundo grau, deslizando macio em marolas suaves. Enquanto isso, ele era enrolado e afundava num turbilho - com sorte, quem sabe?, pelo menos realizava 
o sonho de um curso noturno, ou escola tcnica. Mas o mais provvel era batalhar por um emprego na oficina mecnica do Giba, ou tentar pedir um lugar de mensageiro 
na empresa do seu Euclides... Tudo girava em volta de sua cabea ao mesmo tempo, numa espumarada barulhenta, roncando, carregada de areia, dando cambalhotas e deixando 
tonto... Sabia que, no decorrer desse ano, ia ter que decidir.
Mas agora no. Ia curtir a alegria do momento.
Pegou de novo o trofu, passou a flanela mais uma vez na onda azul. Examinou o espao na prateleira, confirmou que dava para comprar aquele aparelho compacto que 
tinha visto em promoo no supermercado. Amanh mesmo, quando voltasse do colgio, ia descontar o cheque e trazer o som para casa. Mas antes, de manh, tinha prova 
de ingls. E era bom passar os olhos na matria, garantir uma nota boa logo no primeiro bimestre. Marina e Rafael  que eram sortudos. Nem precisavam estudar ingls. 
O pai deles tinha trabalhado dois anos nos
Estados Unidos quando eles eram pequenos, os dois eram feras, falavam tudo, entendiam tudo, agora nem tinham que se preocupar com isso na hora das provas. Ele  
que tinha que ficar ali quebrando a cabea com as preposies... Se to look  olhar, como  que to look for podia ser procurar e to look after era tomar conta, e 
outras coisas assim?
Meio complicado. Mas lngua importante, hoje em dia todo mundo tem que saber. No surfe mesmo estava cheio de palavras em ingls. No d para no saber. Por isso, 
J j insistia, estudava, deitado na cama, morrendo de sono depois de passar os feriados da Semana Santa no sol e nas ondas. Acabou at sonhando com uma lourinha 
de cabelo comprido, recm chegada da Califrnia, que encontrava com ele na praia e dizia: "Iwas looking forward to seeingyou..." e ele entendia que ela dizia "Eu 
estava louca para te ver..."
No dia seguinte, na hora da prova, J j gostou de ver que era fcil, ele sabia quase tudo, ia se dar bem. Foi escrevendo, animado. Parou um instante para pensar 
e viu que a Andreia, a tal aluna nova que viera de Braslia, estava esticando o pescoo para ver a prova da Marina, na frente dela. Marina tambm devia ter percebido, 
porque se deitou um pouco para a frente e escondeu o papel com o ombro. Da fileira mais adiante, a Solange se manifestou, num sussurro:
- Qual  a resposta da terceira?
Marina no disse nada, mas devia ter ouvido, porque at ele, do outro lado, escutara perfeitamente. A sorte  que nessa hora a Miss Kate tinha chegado at a porta 
e falava alguma coisa com algum que a chamara ali. Porque seno tambm ia ouvir. Solange insistiu, perguntou de novo. Andreia pediu:
- Puxa, d uma ajuda...
Marina hesitou. Primeiro, ficou com pena. Afastou um pouco, meio disfarando, e deixou a colega de trs ver a prova dela. Depois, de repente, lembrou do Jaj. Sabia 
que ele tinha metido a cara nos livros, estudado muito. No era justo, como ele diria. No estava certo que agora duas pessoas que no tinham estudado, no fizeram 
nenhum esforo e no sabiam nada, fossem ter nota mais alta do que ele s porque colavam. Ento, continuou fazendo de conta que no era com ela.
De repente, a Solange se irritou e puxou a prova da Marina, segurou bem alto para a Andreia ver tambm e comeou a copiar. Marina puxava o papel do outro lado, parecia 
que ia rasgar. Mas antes disso Miss Kate se virou e viu a cena. Num instante estava em p ao lado, tomou as provas das trs (Marina, Solange e Andreia) e comeou 
a maior bronca:
- No admito cola. Zero para todas trs. Depois desatou a falar. Uma lio de moral
daquelas. D para imaginar, nem precisa repetir. Marina ainda tentou dizer:
- Mas...
- No tem nenhum mas... Colou, deu cola,  todo mundo culpado. No quero nem saber.  ZERO! Para comear... Porque alm disso vocs agora vo falar com Dona Dris.
Dona Dris era a coordenadora e responsvel pelo SOE, o Servio de Orientao Educacional. Todo mundo na classe sabia perfeitamente o que isso significava. Cola 
no Ea era pecado mortal. Em todas as ocasies, os diretores e professores repetiam que o colgio se orgulhava mais da formao moral dos alunos do que dos bons 
resultados no vestibular.
Quem fosse apanhado colando no tinha a menor chance.
"Pronto", pensaram vrias cabeas. "Elas agora vo ser suspensas, vo levar uma notificao para casa e os pais vo ser chamados ao colgio."
Foi isso mesmo o que aconteceu. Quando a prova acabou e elas voltaram  sala para pegar a mochila e ir embora, estavam com os olhos inchados de chorar. E como no 
havia nenhum professor presente logo comeou a maior discusso. A Marina estava to furiosa que at parecia que ia bater na Solange:
- Voc no presta! Fica com essa cara de vtima, mas a culpa foi toda sua...
- Culpa minha, uma ova! Culpa sua, isso sim! Se voc tivesse respondido quando eu perguntei, eu no precisava pegar a prova e a Miss Kate no tinha visto a gente.
- Isso  mesmo!  - completou  Andreia.  - Custava muito ter deixado eu olhar?
Os outros foram comeando a dar palpite. A comear pela Bebei, que no perdia a oportunidade de se meter em tudo:
-  isso mesmo, Marina... Foi a maior falta de coleguismo. Ns todos ouvimos a Solange pedindo e vimos voc negando... Francamente...
Marina continuava furiosa:
- Falta de coleguismo  vocs quererem se dar melhor do que os colegas que estudaram...
- Ah, , beb? Agora vai dizer para a gente que estudou? Voc fala ingls, Marina, nem precisa se esforar para uma prova... - continuava a Bebei, que, pelo jeito, 
estava mesmo tomando as dores das outras.
- No estou falando de mim...
- Tambm s faltava essa... - disse Solange. - Alm de virar as costas para as amigas, ainda vir botar a culpa na gente. A maior falta de unio...
- Mas agora vou falar de mim, sim! - estourou Marina, quase chorando. - A gente tirou zero porque a Miss Kate pegou minha prova na sua mo com a Andreia copiando 
e nenhuma de vocs disse uma palavra para me defender. Se vocs acham que eu virei as costas e tive falta de coleguismo, bem que podiam pelo menos ter dito isso 
para Dona Dris. Mas no, deixaram eu me ferrar, mesmo sabendo que eu no merecia.
- E por que  que eu ia falar? - perguntou Andreia, tambm com os olhos vermelhos. - Voc que se defenda...
- Vocs sabem muito bem que isso eu no seria capaz de fazer... - respondeu Marina, sentindo as lgrimas encherem os olhos, a ponto de se derramar.
- Claro. Porque no tinha defesa mesmo... - insistiu Bebei.
Marina no agentou mais. No queria chorar na frente da turma, mas no dava pra segurar. Sentia um n na garganta, os olhos se enchendo d'gua e ficava tentando 
prender, enquanto ouvia as piadinhas e palpites gaiatos dos colegas.
- Eu no contei nem conto nunca, porque eu tenho carter, ouviu? No ia acusar ningum para Dona Dris. Podia trair, entregar e me livrar, mas isso eu no fao. 
Vocs todas, que ficam com essa conversa de coleguismo, e unio e amizade, e no sei que mais... vocs  que... vocs no so capazes... vocs...
Pegou a mochila e foi chorar no banheiro. Mas ainda ouviu a implicncia da Bebei quando saiu:
- Pronto, agora vai fazer uma cena... De novela mexicana, daquelas cheias de lgrimas fingidas.
Lgrimas de raiva, isso sim, ela queria dizer, responder. Mas j estava no corredor quando ouviu o comentrio. Ainda bem que ouviu tambm a Cntia:
- Cale a boca, Bebei! Chega, t bom? E a voz do Jaj:
- A Marina est certa... No  justo.
No ouviu mais. Ficou trancada no banheiro, chorando, at cansar. Depois, lavou o rosto, tirou a notificao de dentro da mochila para mostrar na portaria do colgio 
e justificar a sada fora de hora. Foi para casa ainda soluando pelo nibus. Ia ter que enfrentar os pais, de noite, quando voltassem do trabalho. Contar o que 
tinha acontecido, levar uma bronca. Mas o pior de tudo era ficar com zero. No,
no era. Isso dava para recuperar adiante, de algum modo, e passar de ano, mesmo com uma mdia baixa. O pior de tudo era se sentir sozinha, abandonada pelas amigas. 
At pela Bebei... Ou principalmente pela Bebei... Ningum tinha ficado com ela.
Isso era o que ela pensava. Porque depois que saiu da sala a discusso continuou. Jaj fez um de seus discursos em favor da justia. Cntia deu a maior bronca nas 
outras. O resto da turma foi se manifestando, dando palpites. Era uma situao difcil, mesmo. Como Cludio resumiu:
- O diabo  que no tem jeito! No d para defender a Marina sem entregar a Solange e a Andreia... E agora as trs j esto mesmo com zero... No d para a gente 
fazer mais nada.
De tarde, quando Cntia veio  casa de Marina consolar e contar o que tinha acontecido depois que ela saiu, concluiu:
- A nica esperana era mesmo a proposta do Jaj.
- Que proposta?
- Bom,  que no final da discusso ele veio com a idia de que a turma toda devia fazer um abaixoassinado para Miss Kate, pedindo para que as trs alunas que tiveram 
zero pudessem fazer outra prova. Sem anular aquela, claro, porque seno no tinha a menor chance dela topar. Mas, pelo menos, vocs tentavam ficar com alguma coisa 
diferente de zero no boletim, dividindo por dois a nota da nova prova.
- Para aquelas duas idiotas, no vai fazer muita diferena - resmungou Marina. - Mas no  m idia. E afinal fizeram o tal abaixo-assinado?
- No. Todo mundo concordou, mas quase ningum quis assinar. Do jeito que a Miss Kate ficou
furiosa e com essa mania anticola que o Ea tem, muita gente ficou com medo de parecer que estava apoiando vocs.
Marina no resistiu  ironia:
- Ah, ? Agora ningum tem nada a ver com isso? Todos acham que  errado colar, no  mesmo? Que lindo! Se eu tivesse conseguido arrancar a prova da mo da Solange 
e Miss Kate no tivesse descoberto nada, todo mundo ia ficar a meu favor,  ? Achando que eu tinha mesmo que negar cola, n?... Fico contente em saber disso... Nunca 
pensei que fosse to querida por meus amigos, todos to honestos... Nessa hora  que a gente v o que  a verdadeira unio da turma, o senso de coleguismo...
- No precisa ficar assim, Marina.
- Precisar, no precisa. Mas fico. Acho que todo mundo foi muito covarde. Bastava algum ter dito a Miss Kate que eu no tive culpa, e a situao j era outra. Pelo 
menos, ela ia ter que fazer umas perguntas quelas duas, na frente de todo mundo... Mas no. Parecia que no tinha mais ningum na sala. E depois, quando a Bebei 
teve aquele ataque e comeou a me agredir, s se ouviu gente concordando, fazendo piadinha.
Marina mudou a voz, para imitar algumas das coisas que o pessoal sempre dizia, e continuou:
- Quem no cola, no sai da escola... U? No chama colgio? Escola? tem cola at no nome. Se fosse para estudar em vez de colar, chamava estudgio, esestudo, qualquer 
coisa assim...
Cntia interrompeu:
- Est certo, voc est morrendo de raiva, tem todo o direito. Mas tambm est sendo injusta. Teve uma poro de gente que te defendeu. Depois que
eu e o Jaj comeamos a falar, caiu todo mundo em cima da Bebei. Voc no estava mais l, no ouviu, no sabe...
- Mas assinar o abaixo-assinado, que  bom e pode  ajudar,  ningum vai  assinar...  - insistiu Marina, lembrando que tinha ouvido um pouco do comeo dessa defesa.
- Nem vai precisar, Marina. Quando o pessoal ficou vacilando, o Jaj parece que teve um surto. Ficou berrando que no era justo, falou um monte de coisas, daquele 
jeito dele, e saiu pela porta afora. Foi atrs da Miss  Kate na sala dos professores. Conversou com ela, e deu um jeito de convencer a fera, porque voltou com a 
novidade de que vocs trs vo fazer uma outra prova, muito mais difcil. Mas ela avisou que vocs vo ver s, vai dar a vocs uma unforgetable lesson.
- J deu, Cntia, j deu... - suspirou Marina, aliviada. - Nunca mais vou esquecer. Aprendi uma poro de coisas. Para sempre.
- O qu, por exemplo?
- A mais importante  que nem todo mundo que a gente pensa que  amigo  mesmo, de verdade. Mas que voc, por exemplo, . E eu fico muito feliz de ter perto de mim 
uma pessoa como voc. E como o Jaj, que  um carinha legal.
Marina deu um abrao em Cntia, comovida. E ficou surpresa de ouvir a outra dizer:
- Voc no est sendo justa, Marina.
- Como assim?
- O Jaj no  um carinha legal. Isso  pouco para ele, eu acho. Ele  um cara superlegal, corajoso, direito, inteligente e cheio de idias, amigo dos amigos, com 
o maior senso de justia. A gente vive
falando nele assim como se ele fosse uma figura divertida, um cara meio engraado e brigo, chamando de Juju, essas coisas... Mas eu acho que ele merece mais respeito.
- Voc est certa. O Jaj  superlegal e merece respeito, eu reconheo. Vou l embaixo agradecer a ele. Isso  que se chama "um grande toque". Viu s? Voc  mesmo 
uma amigona, Cntia.
- Ele  que foi um amigo. Merece mesmo nosso respeito e admirao. E carinho, amizade, Marina, ele  um cara meio sozinho no meio da turma, s tem os colegas do 
time, mas no sei se isso  amizade mesmo. Voc precisava ver o jeito dele quando acabou de falar. Disse que, se todo mundo estava se cagando de medo, ele no estava 
e no ia aceitar uma injustia  dessas.  Falou bem assim mesmo. E saiu da sala. A gente ficou at com vontade de bater palmas.  Parecia aqueles filmes de bangue-bangue, 
quando o justiceiro solitrio aparece na ponta da rua para enfrentar os bandidos. Ele podia estar sozinho, podia se dar mal, mas ia lutar at o fim pela justia. 
Foi emocionante! Demais!
Marina tentou imaginar a cena. No conseguia, lembrava mais do Jaj gaguejando, meio tmido. Ele devia ter ficado mesmo com muita raiva, para vencer essa timidez. 
Na hora da raiva, a gente faz coisas que nem imagina. Uns correm, outros batem, outros choram e se desesperam - que nem ela. Estava descobrindo que o Jaj, nessa 
hora, enfrentava. De um jeito bonito.
E graas a esse jeito ela conseguiu melhorar a mdia e se livrou do pior. Porque os pais, quando souberam do que tinha acontecido, at que foram compreensivos. O 
pai s disse:
- V se aprende a ser mais esperta da outra vez e faz um escndalo na hora. Pra dar uma lio nessas falsas colegas.
E a me, que ouviu calada, depois apareceu com um sorvete de pistache - que era o preferido de Marina:
- Toma, para compensar o zero. Eu sei que voc no teve culpa. No esquenta a cabea, no, voc tem nota de sobra, vai passar...
J a Solange no teve a mesma sorte. Todo mundo na classe ficou sabendo que depois da entrevista dos pais dela com Dona Dris a coisa fedeu para o lado dela. Foi 
bronca, castigo, um horror. Pelo menos, ela se fez muito de vtima.
De qualquer modo, a situao foi melhor que a da Andreia. Esta, coitada, passou por tudo em brancas nuvens. Os pais nem ligaram. Pelo jeito, no ligavam mesmo muito 
pra ela. E depois das frias de julho, quando j estava evidente que as notas da Andreia eram muito baixas, em vrias matrias, ela no voltou mais para o Ea. Dizem 
que a famlia foi outra vez para Braslia, onde o pai tinha sido nomeado para alguma outra coisa. Mas parece que ela foi mesmo para um desses colgios pagou-passou.

5.  s querer?

Em uma conversa animadssima, Marina e Cntia vinham chegando do colgio. Em frente ao prdio encontraram Bia e Marta, as vizinhas do 101. Bia foi logo chamando:
- Vocs no querem ir l em casa depois do almoo? Est chegando o aniversrio da Marta e a gente quer combinar a festa.
- ... - reforou a irm. - Estamos fazendo lista de convidados, escolhendo msicas, essas coisas... Vocs podiam dar uma fora.
As outras duas se olharam com ar de quem estava com pena. Marina respondeu:
- Acho que hoje vai ser difcil. S se for bem no fim da tarde. E, mesmo assim, no d para garantir.
- Ento fica pra outro dia. Mas o que  que vocs vo fazer hoje?
- A gente vai ter um trabalho de grupo para o colgio, superlegal! - explicou Cntia, animadssima. - Um jri simulado. Vai ser demais!
Cntia, animadssima com um trabalho de grupo? As trs amigas olharam para ela com cara de espanto.
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- Espera a, acho que eu ouvi mal - disse Bia. - Vocs vo estudar ou tirar frias?
- Eu acho  que tem algum menino muito especial nesse grupo... - brincou Marta.
Cntia ficou sem graa. Mas, antes de conseguir dizer alguma coisa, Marina j estava respondendo:
- Os nicos meninos do grupo so o Jaj e aquele espinhento do Cludio, que vocs conhecem da festa da 
Manu. Se vocs acharem algum deles muito especial, podem ficar com ele... Somos ns duas, eles dois e mais a Solange.
- Ento por que toda essa empolgao da Cntia?
Boa pergunta.
Em geral, Cntia j no era muito chegada a um estudo. Alm disso, as amigas sabiam que ela ficava muito mal-humorada toda vez que tinha de fazer um trabalho em 
grupo. E eram muitas vezes, porque os professores do Ea tinham mania de achar que o estudo coletivo desenvolve o esprito de equipe, cria uma tal de "dinmica renovada 
nas relaes entre os colegas", incentiva a descoberta de novas fontes de dados e tem no sei quantas vantagens pedaggicas mais.
- Odeio essa palhaada... - costumava dizer Cntia, resmungando, toda vez que havia trabalho de grupo. - Odeio!
dio era exagero. No passava de irritao. Mas se expressava com uma veemncia que ficou famosa, at mesmo para Marta e Bia, que eram s vizinhas de prdio e nem 
estudavam no Ea de Queirs.
No fundo, a prpria Cntia sabia que no tinha tanto horror assim do trabalho em equipe. Quer dizer, at curtia estudar com os colegas e fazer alguma coisa juntos. 
Mas detestava tudo o que vinha antes. A comear pela escolha dos grupos pelos professores, sempre empurrando uns chatos que no faziam nada e se 
aproveitavam do trabalho alheio, ou uns perfeccionistas que empatavam o tempo, no deixavam o estudo avanar, e passavam a tarde toda no mesmo lugar, deixando uma 
trabalheira para a ltima hora. Havia sempre um monte de discusses para conseguirem conciliar os horrios, combinando o treino de jud de um com a aula de dana 
de outra. E no fim ainda era a tenso de ter que se despencar de nibus para a casa de algum, numa rua desconhecida num outro bairro, sem ter certeza de que se 
ia saltar no ponto certo. Quando eles eram menores, sempre havia alguma me para levar e apanhar de carro, dando carona para os outros. Mas agora que estavam todos 
mais independentes, circulando sozinhos pela cidade, sobrava a chateao. Tinham que se virar para descobrir os livros em que iam pesquisar, ou para ir  papelaria 
comprar cartolina se precisassem fazer um grfico grande ou cartaz.
Mas dessa vez foi diferente. O Lus Guilherme, professor de Histria, deixou que eles mesmos escolhessem os grupos. E ainda sugeriu um critrio geogrfico, aconselhando 
que procurassem reunir colegas que morassem prximos. Resultado: juntaram-se Cntia, Marina e Jaj, que moravam no mesmo prdio, e mais Solange e Cludio, que viviam 
a poucos quarteires de distncia, dava para virem a p.
Alm disso, o tipo de trabalho era interessante. Iam fazer um jri simulado, como se fosse um julgamento mesmo, de verdade. Uma equipe era a promotoria, quer dizer, 
preparava a acusao. O grupo deles ficava encarregado da defesa. O ru era uma
figura histrica. No caso, o rei D. Joo VI. Os outros alunos funcionavam como jurados, pesando os argumentos das duas partes e decidindo se o acusado era culpado 
ou inocente, do ponto de vista do Brasil. Ou seja, se o seu governo trouxe mais vantagens ou desvantagens para o pas. S que no final tinham que dar sua opinio 
por escrito, para no ficar no bembom e para compensar a trabalheira prvia dos grupos que faziam a defesa e a acusao, e que j tinham se matado preparando tudo. 
Exigncia do Lus Guilherme.
Pelo menos, essas foram as explicaes detalhadas que Cntia deu para as amigas, justificando sua empolgao exagerada:
- Desta vez  diferente. Muito bem bolado. E no preciso nem sair de casa, todo mundo  que vem estudar comigo.
- Com direito ao famoso lanchinho da casa da Cntia!... - brincou Marina.
- Oba! No sobra para os vizinhos? - perguntou Marta, rindo.
- O que sobrar eu levo para sua casa quando a gente for combinar a festa... - prometeu Cntia.
- Com aquele seu irmo em casa? E mais dois meninos no grupo? Um deles o Jaj? No sobra nada... - concluiu Bia.
- Isso j  implicncia - defendeu Cntia. - O Antnio j est acostumado, lancha em casa todo dia. E nunca vi o Jaj bancar o esfomeado nem se atirar em cima de 
comida. S se o Cludio fizer isso...
- Est bem, no precisa ficar zangada, eu estava s brincando - acalmou Bia. - E est certo que o Jaj no se atira nos sanduches, mas  s oferecer que ele traa. 
Nunca ouvi ele dizer no, obrigado. E
um tal de aceito pra c, aceito pra l que quando a gente olha o prato est vazio...
- Cuidado, muda de assunto que l vem ele...
- avisou Marina.
Jaj e Rafael iam ao colgio de bicicleta, quando no chovia. Por isso, sempre chegavam de volta muito antes delas, que vinham devagar, conversando... E, com a pressa 
de sempre, ele j tinha trocado o uniforme e vinha saindo do prdio. Ao passar por elas avisou:
- No se preocupem que eu j volto. Vou s ali no eletricista buscar o ferro que minha me mandou consertar...
- No atrase, hein? - recomendou Cntia. - A gente vai comear s duas e meia. O pessoal vem logo depois do almoo.
- Eu tambm. At j almocei... -J?
-J...
Jaj, claro... Todas riram. Era o Jaj de sempre. Tudo ao mesmo tempo agora.
Foi cada uma para sua casa.
Pouco antes da hora marcada, Jaj tocou a campainha dos fundos da casa de Marina e mandou perguntar se ela estava pronta, para subirem juntos at a cobertura.
- Um instantinho s... Se quiser, vai subindo...
- gritou ela l de dentro.
- No, eu espero. Tem tempo...
Marina achou que ele estava meio sem graa de chegar l sozinho. Como era amigo de Rafael, no tinha essa preocupao na casa dela. Mas na da Cntia era diferente: 
no tinha intimidade com o Antnio, irmo dela, que estudava em outro colgio.
E havia um lado do Jaj que era assim, meio encabulado, tmido mesmo.
Quando ela chegou, carregando uns livros e o estojo, ia apertar o boto do elevador mas Jaj, claro, j estava subindo os primeiros degraus da escada, de dois em 
dois, com um envelope na mo. Ela foi atrs, mais devagar. Afinal, era s um andar, e um pouco de exerccio no faz mal a ningum. Mesmo depois do almoo.
- Sabe aquela Adriana que fez umas faxinas no
201? - Jaj estava perguntando para a empregada da Cntia quando Marina acabou de subir a escada. - Ela vem pegar uma encomenda da Dona Mirella, este envelope aqui... 
Qualquer dvida,  s me chamar.
Para Marina, comentou:
- Tem mesmo gente muito boba nesse mundo...
- Quem? - perguntou ela, enquanto entravam pela cozinha adentro, chegavam  saleta e subiam a escada para o salo do terrao, onde iam estudar.
- Essa tal de Adriana! Voc acredita que ela est se abalando l do subrbio onde mora s para vir aqui pegar uns autgrafos de Dona Mirella e seu Augusto?
- Mas ela no trabalhou um tempo na casa deles? Por que no pediu?
- Sei l... Parece que deixou para pedir na hora de ir embora, mas eles estavam com pressa, ficaram de dar e esqueceram. Depois ela ligou lembrando, eles iam viajar, 
deixaram l em casa para ela pegar. E como hoje  a folga do meu pai, ele pediu para eu entregar... Colei um bilhete na porta, dizendo que vinha para c...
- E ainda bem que vieram cedo... - interrompeu Cntia, recebendo os amigos no alto da escada.
- Solange j chegou. Podemos ir comeando, porque o Cludio no deve demorar.
No demorou mesmo. A campainha da frente j tocava. Cntia pediu que a empregada preparasse um lanche (o famoso!) para trazer s quatro horas. Num instante todos 
se espalharam em volta da mesa, com livros, cadernos e canetas. Solange foi abrindo os livros, procurando as pginas que tratavam do reinado de D. Joo VI. De repente, 
estranhou:
- Gente, qual foi o maluco que trouxe um livro sobre Napoleo?
- Fui eu... - respondeu Cludio, meio sem graa.
- Mas maluco  o Jaj, porque foi ele que pediu.
- D para explicar por qu? - perguntou
Solange. - Num trabalho de histria do Brasil voc vai pesquisar histria da Frana?
- Claro! - respondeu ele. - D. Joo s veio para c porque Napoleo estava invadindo tudo quanto era pas da Europa e j estava chegando em Portugal. Se no tivesse 
perigo, ele tinha ficado por l e nunca que o Brasil ia virar reino... Ento eu achei que era bom a gente dar uma conferida nessas coisas, para entender melhor.
- Mas isso a gente j sabe,  s dizer, e pronto... - insistiu Solange.
"Sempre a mesma preguiosa... Por ela, no faz nada... S quer moleza", pensou Marina, que no esquecia o episdio da cola e no conseguia mais ser amiga da Solange. 
Mas s pensou. Achou melhor ficar calada, ouvindo a resposta do Jaj:
- Mas tem que entender Napoleo, os aliados dele, os inimigos. Como  que a gente pode entender D. Joo VI sem saber da poca dele? Da relao com a Inglaterra? 
Vale a pena explicar...
- Pelo amor de Deus, Jaj... Essa no... Voc agora vai querer contar a histria de tudo quanto  pas? Daqui a pouco vamos estar estudando a China, s para voc 
explicar D. Joo VI... Assim, isso no
acaba nunca...
Ele ficou meio sem graa. Foi salvo pela Cntia,
que perguntou:
- Ento, o que  que vocs sugerem? Por onde
a gente comea?
- Bom, se  um julgamento, e estamos encarregados da defesa, a gente podia fazer uma lista das coisas favorveis a ele - props Cludio.
Ficaram um pouco em silncio. Era difcil comear. Objetivamente, Marina perguntou:
- Afinal de contas, de que  que ele  acusado? A gente ainda no sabe o que a acusao vai dizer...
Todos se entreolharam. Cludio sugeriu:
- De covarde? Pode ser... bastou os soldados de Napoleo chegarem perto para ele fugir para o outro lado do oceano com a corte toda... Como  que se pode defender 
algum dessa acusao?
Comearam a discutir. Se o rei (alis, ainda prncipe regente, como Marina fez questo de lembrar) podia ter enfrentado os invasores. Se devia. O que os outros reis 
de outros pases fizeram. O que aconteceu com eles. Por que Napoleo, to poderoso e dominando tantos pases, estava interessado em ir to longe e invadir Lisboa. 
Quanto mais se enrolavam, mais achavam que talvez J j tivesse razo. Tinham que saber um pouco da Europa na poca, principalmente da Inglaterra, o nico pas 
que enfrentava Napoleo. E no dava para esquecer os tratados que ligavam Portugal aos ingleses.
Deram o brao a torcer e concordaram em que J j, que conhecia melhor a histria de Napoleo, situasse historicamente a mudana da famlia real para o Brasil, 
conferindo uma ou outra coisa no livro que Cludio trouxera. Pouco a pouco, J j foi assumindo a liderana do trabalho. Sugeriu que eles imaginassem que no tal 
jri simulado iam atacar D. Joo VI, em vez de defend-lo, e fizessem uma lista de possveis acusaes.
Solange comeou a protestar:
- Ficou maluco, ? Agora quer que a gente faa o trabalho dos dois grupos?
- No. Quero s estar preparado, imaginar o que podem usar na acusao e ter resposta pronta.
Os outros concordaram. E mesmo interrompidos por uns dois telefonemas, pela vinda da Adriana para pegar o envelope e por um fantstico lanche (de chocolate batido 
com sorvete e sanduches de pastinhas variadas), aproveitaram muito bem a tarde. Jaj foi organizando o trabalho e o tempo rendeu. Examinaram os aspectos econmicos, 
culturais e polticos da vinda da famlia real para o Brasil. Descobriram conseqncias dela que se irradiaram por muitos anos e muitos aspectos da histria: abertura 
dos portos, fundao de instituies culturais, incentivo a um comeo de industrializao, apoio s crescentes idias de independncia (aproveitando para garantir 
uma independncia muito relativa e manter a famlia real portuguesa no novo trono), reforo da dependncia econmica em relao  Inglaterra (cheia de desvantagens, 
mas tambm trazendo a proibio do trfico de escravos da a alguns anos). Uma poro de coisas, variadas e controvertidas, mas interessantes, ligadas a montes de 
aspectos diferentes da histria.
Quando perceberam, j estava quase escurecendo, porque em maio os dias j eram mais curtos. Mas acabaram o trabalho satisfeitos:
- Acho que vamos  ganhar esse  jri...  -
comentou Solange.
- Claro que vamos! No tem para ningum... Do jeito que nos preparamos... - disse Cludio.
- Tambm,  quase covardia com os outros. Com Jaj, o Justiceiro, ao nosso lado... - brincou
Cntia.
- Juju! Juju! Juju! - os quatro gritavam juntos, batendo palmas, como se fossem uma torcida.
Jaj ficou sem graa, foi se despedindo e saindo, com uma desculpa qualquer. Solange e Cludio tambem desceram e s ficaram Marina e Cntia, recolhendo os ltimos 
papis espalhados e ajeitando as cadeiras em volta da mesa.
- Sem brincadeira, o Jaj foi demais... - disse Marina. - Se no fosse por ele, acho que tnhamos ficado meio perdidos.
- Ele  brilhante... - concordou Cntia. - Acho incrvel ver como ele se concentra, vai encaminhando o raciocnio, emendando um argumento no outro, cercando por 
todos os lados... E tem o maior sentido de justia... Tem tudo para ser mesmo um advogado maravilhoso.  s querer...
- No sei, no... - discordou Marina, pensativa, lembrando das dificuldades econmicas do amigo, que de vez em quando ouvia o irmo mencionar.
- Como no? Marina, o Jaj  superinteligente! Ele  s tmido, mas quando se empolga e esquece a timidez ningum pode com ele. Vai ser brilhante em qualquer coisa 
que fizer... Direito, jornalismo... J imaginou ele investigando uns casos de corrupo para alguma revista, escrevendo artigos nos jornais, entrevistando polticos 
na televiso? Ele vai dar certo no que quiser...
- No tenho tanta certeza assim, Cntia. Nem sempre depende da pessoa querer...
- Pois eu tenho! E, para comear, vamos todos ganhar esse jri simulado, dar uma surra na outra equipe e tirar dez com esse trabalho! Tambm tenho certeza.
Foi isso mesmo o que aconteceu. Mas quanto aos sonhos para o futuro do Jaj, ainda era cedo para saber.

6. Cruzeiro do Sul em Cerro Azul


S da a uns dois dias  que Marina e Cntia foram  casa de Bia e Marta combinar a festa. Quando chegaram l, encontraram as amigas vendo fotografias:
- Vejam a figura da Bia montada a cavalo com um chapelo... - mostrou Marta.
- E a Marta no alto da goiabeira igual a um macaquinho... - devolveu Bia.
As vizinhas comearam a ver as fotos junto com elas. Tinha piscina, cachoeira, jogo de vlei. E um grupo de meninas posando para um retrato, num quarto cheio de
camas-beliches.
-  colnia de frias? - perguntou Cntia. As duas riram.
- No,  o stio do meu av. Cerro Azul. Essas a so minhas primas, quase todas. Menos estas duas aqui, que so amigas delas.
- E cabe essa gente toda l?
- Cabe .  uma casa enorme, com um monte de quartos. Tem cama-beliche, bicama, e ainda d para abrir uns colchonetes no cho... - respondeu Bia.
- Sem falar no sof-cama e nas redes da varanda. Lembra daquele ano em que o amigo do Felipe dormiu na rede e teve um pesadelo com um navio em alto- mar? - riu Marta.
- Acordou a casa toda no meio da noite, berrando que estava enjoando e ia vomitar... E o pior foi que vomitou mesmo...
Rindo junto, a Bia explicou:
- ... mas no foi por causa da rede. A gente tinha ido de tarde visitar o stio de um vizinho que plantava cana e tinha um alambique...
- O que  isso? - interrompeu Marina.
- Um aparelho para fazer cachaa. O cara mandou um litro de pinga de presente para o vov. Mas o Felipe e o amigo, que vinham trazendo, inventaram de dizer que no 
caminho a garrafa tinha cado do cavalo e quebrado. S que eles tinham guardado para tomar escondido de noite... Passaram to mal que at hoje o Felipe no agenta 
nem sentir o cheiro de lcool quando algum destampa uma garrafa do outro lado da sala. Vai logo ficando meio verde e saindo para o ar puro.
- Quem  o Felipe? - quis saber Marina.
- Um   primo   nosso,   de   Belo   Horizonte. Quando ele vem para as frias no stio sempre traz um amigo.
Ouvindo isso, Cntia deu uma indireta to direta, com um ar to pido, que Marina pensou que ia morrer de vergonha.
- Puxa, vai tanto amigo l, e vocs nunca nos chamaram...
Bem que Marina tentou fingir que no tinha ouvido e mudar de assunto:
- L  sempre assim cheio de flores, como est nessas fotos?
No adiantou. Ningum respondeu. Ficou um silncio meio carregado. Bia olhava para Marta, que olhava de volta para Bia, e nenhuma das duas dizia nada. Depois de 
alguns instantes que pareciam uma eternidade, os olhos de Bia brilharam, ela deu um sorriso e exclamou:
- Sou uma gnia! Estou tendo a maior idia do ano! Marta, por que a gente no combina de levar os amigos todos para um fim de semana l em Cerro Azul? Voc no estava 
querendo um aniversrio diferente? Pois ento... Aposto que a vov vai adorar... Ela gosta de ter a casa cheia...
E, se virando para as outras, continuou, animada:
- Assim no meio do ano tem sempre lugar, sabe? Os primos de Minas s vm nas frias, porque para eles fica muito longe para passar fim de semana. Para a gente  
que d,  pertinho, s uma hora de carro...
Marta hesitou:
- No sei... Acho muito legal a idia de levar os amigos para o fim de semana. Ia ser o mximo! Mas, no  aniversrio,  no  sei...  Eu  queria  uma  festa mesmo, 
de dana...
Cntia, sempre oferecida, sugeriu:
- E da? Uma coisa no impede a outra. A gente passa o fim de semana e faz uma festa l mesmo. No pode?
- Claro que pode! Grande idia, Cntia! - Bia bateu palmas, de to empolgada. - Vai ser a maior  novidade.  Nunca  fizemos  uma  festa  de dana no stio.  sempre
a mesma coisa: de noite a gente joga, conversa junto da lareira, toca violo, canta...
-  No tem televiso? - perguntou Cntia, horrorizada.
- Tem, mas no pega direito, por causa dos morros. Vov est sempre para mandar instalar uma antena, daquelas... para... para... como  mesmo?
- Parablica - acudiu Marina.
As duas irms caram na gargalhada e Marta explicou:
-  que o dono de uma vendinha que tem l perto mandou instalar uma, mas s chamava de antena paranica... A a gente comeou a imitar, de gozao, e agora nos confundimos. 
Toda vez que temos que dizer o nome,  preciso pensar para saber como  mesmo o certo... Mas, de qualquer jeito, minha av diz que eles no instalam antena porque 
no fundo o meu av prefere mesmo que a gente no fique plantado na frente da televiso.
- ... ele diz que ficar plantado  coisa de rvore, e que a gente tem mais  que se mexer - completou Bia. - E como de dia ningum pra, e de noite  mesmo uma 
delcia curtir o fogo, o luar e as estrelas, a gente acaba nem sentindo falta da tev.
Virou-se para a irm e insistiu:
- Como ? E o fim de semana no stio? Afinal, voc quer ou no quer? O aniversrio  seu...
A essa altura, Marta j no tinha mais dvidas.
- Quero, sim. Se der para ter festa tambm, claro que quero. Vai ser demais! Ih, nem vou agentar esperar...
Comearam logo a agitar. Telefonaram para o trabalho da me, que achou timo e disse que ia falar com os pais dela. Menos de cinco minutos depois, a av j estava 
ligando para as netas, na maior empolgao. Marta atendeu, conversou um bocado e, quando desligou, explicou s outras:
- Minha av ficou eltrica... A coisa que ela mais gosta na vida  ficar com a casa cheia de netos e amigos dos netos... J estava pensando em fazer um churrasco, 
e no sei que mais...
Fez uma pausa e continuou, com um ar mais
hesitante:
- Ela tambm disse que  maravilhoso fazer uma festa no meu aniversrio porque  num dia perfeito, e h anos ela no d uma festa nesse dia... Ainda mais porque 
este ano cai num sbado...
- Dia perfeito? Por qu? - estranhou Bia. - Porque 12 de junho  o Dia dos Namorados?

Marta deu um sorriso meio sem graa:
- Dia dos Namorados para a gente, Bia. At parece que voc no conhece a sua prpria av... Para ela,  vspera de Santo Antnio. E o nome do vov  Antnio...
- O do meu irmo tambm - intrometeu-se
Cntia.
Marta ignorou a interrupo e continuou:
-  que vov conheceu vov numa festa de Santo Antnio, que ela chama de "santo casamenteiro"... H milnios, claro, uns quarenta anos pelo menos... Ento quer festejar 
e fazer uma super-festa... Para meu aniversrio e para comemorar o santo...
Bia, de repente, entendeu:
- Voc est dizendo que vai ser uma festa
caipira?
- Acho que  o jeito, Bia - confirmou a irm. - Ou ento no vai poder ser em Cerro Azul. No comeo, ainda tentei argumentar que isso  coisa de criana no colgio, 
mas no adiantou. No dava para cortar a onda da vov. Ela j estava toda animada, falando em fogos e fogueira, em sanfoneiros e quadrilha...
- Quadrilha? - repetiram as outras.
Cntia, sempre mais espontnea, disse o que todas estavam pensando:
- Ih, vai ser o maior mico...
- ... Mas a gente pode dar um jeito. No precisa ser quadrilha o tempo todo. Entrei num acordo com a v Elza. A festa comea cedo, tem sanfona e tem quadrilha - 
porque seno ela morre de paixo. Mas depois, a gente liga o som e dana as msicas das fitas que vamos levar... A fica at a hora que quiser.
- Acho que vale a pena, Cerro Azul  to legal... - disse Bia.
- Por mim, tudo bem... - concordou Marina.
- E o churrasco? - lembrou Cntia.
- Vai ser no dia seguinte. Ela faz questo.
- Deus do cu,  uma festa que dura dias...
- Minha av  assim - definiu Bia.
Era muito mais, como Marina e Cntia foram descobrindo, meio surpresas. A idia da festa foi evoluindo e crescendo. At algumas pessoas do Ea foram convidadas. 
Mas poucas, porque Marina conseguiu cortar a traidora da Bebei (nunca perdoada depois da sujeira no dia da cola). S no conseguiu foi podar a Solange, porque era 
vizinha e amiga de praia da Marta.
De qualquer modo, era muita gente. Os avs das meninas alugaram um nibus para levar todo mundo. E quando chegaram todos l, na vspera do aniversrio, tarde da 
noite, alm de encontrarem as camas arrumadas  espera, havia uma mesa posta com um lanche fantstico, para um bando de adolescentes sempre famintos. E uma faixa 
pendurada na parede: "BEM-VINDOS A CERRO AZUL. DIVIRTAM-SE". Bem embaixo de um incrvel relgio de madeira, em forma de casinha, de onde saa nas horas certas um 
passarinho cantando cuco!
No dia seguinte, bem cedo,  medida que o pessoal ia acordando, as janelas dos quartos iam se abrindo e s se ouviam exclamaes de quem descobria a paisagem:
- Mas que legal!
-  o mximo!
- Demais!
Depois, era s chegar at a sala e descobrir que a tal mesa j estava posta de novo, agora com um super caf da manh, que no d nem para descrever.

Quando estavam todos em volta da mesa comendo, ou espalhados pela varanda com pratos e canecas na mo, porque no cabia todo mundo, dona Elza puxou um coro, cantando 
parabns para Marta, logo cedo, s para dar bom-dia... Em seguida a av das meninas bateu palmas para pedir silncio e seu Antnio falou:
- Estamos muito contentes porque vocs esto aqui conosco, festejando nossa neta e meu santo. Podem andar pelo stio por todo canto, a Marta e a Bia mostram tudo 
a vocs, a Elza e eu estamos aqui para o que quiserem... Fiquem  vontade... Podem ir ao curral,  piscina, andar a cavalo... O almoo   uma hora, e cinco minutos 
antes a gente toca um sino para chamar. Depois a festa comea s sete. E o Tio Fogueteiro, irmo do Z da Gorda (que  o sanfoneiro), pediu para eu dar um recado 
a vocs.
Em meio a risinhos e recomendaes de "psiu, silncio, deixa ele acabar!", seu Antnio prosseguiu:
- Alis, dois recados. Primeiro, que ningum se meta a soltar fogos, porque disso ele se encarrega e j teve um ano, numa festa, que houve um acidente
e algum queimou a mo. Ele no quer se arriscar. Nem eu, alis...
- E o outro recado? - quis saber Bia.
- O outro, na verdade,  mais do Z da Gorda, irmo dele. Mas  que o Tio sempre ajuda a organizar quadrilha, ele  que fica animando a dana, dando as ordens, 
dizendo "anarri!", aquelas coisas todas. E eles queriam que vocs j fossem escolhendo com quem vo danar, que  para no ter muita confuso na hora e j se poder 
saber se est faltando par, ou se vai ser preciso chamar mais algum...
Mais tarde, quando Marina lembrava desse dia, ficava at meio encabulada de pensar que tudo comeou por causa desses recados do Tio Fogueteiro. Mas foi mesmo.
 que, evidentemente, essa histria de ter um dia inteiro para escolher o par acabou afetando tudo o que o pessoal fazia. Assim que seu Antnio acabou de falar, 
quem fosse muito atento e observador j poderia perceber que cada menino ou menina do grupo estava olhando em volta disfaradamente, pesando e medindo com os olhos 
e o corao, e tratando de fazer a sua escolha. At mesmo Marina, que nem era to observadora, reparou que estava comeando uma certa movimentao diferente.
Alguns no tinham dvidas, j sabiam muito bem quem achavam mais interessante no meio de todos os outros. O negcio era resolver se era melhor se aproximar e falar 
logo diretamente, ou se era prefervel armar uma situao em que o convite parecesse natural. Mas nesse caso sempre se corria o risco de que um mais esperto ou mais 
ligeiro chegasse antes.
Mas no era o caso de Marina. Se ela tivesse que se definir, talvez dissesse que estava na turma do
"tanto faz...", que no estava diretamente ligada em ningum. Quer dizer, em termos... Podia no ter nenhuma preferncia especial, mas era bom tratar de escolher 
logo para no ficar com a sobra. Porque com toda certeza sempre se tinha alguma "despreferncia", algum com quem no se ia querer danar de jeito nenhum. A dela 
era o Rafael, claro - no ia se meter a encarar uma quadrilha atrelada ao prprio irmo! Mas nem precisava se preocupar, porque ele  j  estava todo insinuante  
para  o lado  da Madalena, uma loura de voz chata, do colgio da Marta, que j comeava o dia toda maquiada e produzida, de brinco de argolo e blusa de oncinha.

Era engraado aquilo. Depois do caf, a turma foi se espalhando pelo gramado e pela piscina, e parecia que j era uma dana. A Solange praticamente agarrou o Cludio, 
com espinhas, culos e tudo, na certa s para garantir que no sobrava. O Beto, um baixinho tagarela metido a gozador, com cara de criana (mas devia ter uns treze 
anos pelo menos, porque era da turma da Marta, como quase todos), na frente de todo mundo, perguntou bem alto para a Juliana, bonita, magrela e alta, com jeito de 
modelo - aquela Juliana em que todos estavam de olho desde que ela apareceu:
- Queres ser meu par,  belo avio? E, para surpresa geral, ela topou! O Codaque passou a manh se exibindo na beira da piscina, fazendo pose de artista, jogando 
para trs aqueles cabelos louros e compridos que caam no olho... Mas cada vez que parecia que ia chamar uma menina para danar com ele,  mudava de idia. Quando 
viu, no sobrava ningum e ele ficou sem par. Em cima da hora, seu Antnio deu um jeito e ele
acabou danando com a filha do caseiro, uma morena engraadinha, de olhos brilhantes, mas toda encabulada, no dizia uma palavra. Ficou um par bem diferente, ele 
todo surfista e ela bem caipira mesmo. Todo mundo fotografou. Quer dizer, mais uma vez o Codaque justificou o apelido que o pessoal da praia tinha dado a ele, porque 
era to exibido que no podia ver ningum com uma cmera apontada para os surfistas. Ficava logo dando lucro para a Kodak, fazendo pose de comercial de vero na 
tev, ou todo sorridente na prancha, descendo em marola como se estivesse fazendo a coisa mais difcil do mundo.
Mas o caso  que no meio desse escolhe-escolhe todo de repente o Antnio, irmo da Cntia, chegou perto da Marina e mostrou:
- Olhe l. O cara est jogado s baratas... Ento ela reparou no Jaj meio isolado. Sem
ningum em volta disputando para danar com ele. E ficou furiosa. Um cara to legal como o Jaj, assim de lado, discriminado por todas aquelas menininhas cheias 
de frescura, s porque no tinha dinheiro, no usava roupa de butique nem tnis importado, no ia a clube da moda. S porque era filho de porteiro... Um desaforo!
Marina foi at junto dele e perguntou:
- Quer danar a quadrilha comigo?
Ele ficou meio sem graa, disse que no sabia danar, era muito desajeitado. Mas dava para ver que ele estava morrendo de vontade de entrar na quadrilha com todo 
mundo. Era s insistir que ele aceitava. Marina insistiu e ele aceitou. Ela deu um abrao nele, festejando, e, por cima do ombro do Jaj, viu Cntia debaixo de uma 
rvore, encostada no tronco, olhando para eles com uma cara meio estranha.
Quando chegou a hora do almoo, os pares j estavam formados. Marta estava na maior felicidade, ia danar com o Bernardo, do colgio dela, um cara de quem ela estava 
super a fim havia muito tempo. Bia tambm foi escolhida pelo menino que ela escolheu (no d para saber quem viu primeiro. Como, alis, em muitos daqueles pares). 
Cntia se distrara e sobrou para danar com o Antnio.
Por isso, veio conversar com a Marina mais tarde:
- Acho o maior mico danar com irmo. Cntia vivia achando que tudo era o 
maior
mico. Sempre se incomodava com o que os outros iam achar e dizer, no queria dar vexame - ou o seu clebre pagar mico. Continuou:
- Voc que  minha amiga podia dar um jeito
nisso...
- Eu, como?
- A gente podia trocar. Voc dana com o Antnio e eu dano com o seu par. Quem ? Algum muito especial ou voc no se incomoda com a
troca?
- Vai dizer que no sabe?  o Jaj... Se quiser, podemos trocar. Quer dizer, se ele topar. E eu aposto que ele gagueja que nem motor enguiado mas topa. Mas vou 
logo avisando, hein Cntia: voc no me engana. Eu s concordo porque sei que voc tambm sabe que o Jaj  algum especial...
No dava para Marina esconder uma certa ironia na voz. Ningum tirava da cabea dela a idia de que Cntia tinha feito aquilo de propsito. bvio que ela queria 
danar com o Jaj desde o comeo. Mas na certa no teve coragem de falar, ou demorou muito. E agora vinha com essa... Ou no? Ser que no era agora? Ser que Cntia 
tinha planejado tudo?
Ser que tinha sido ela quem mandou o Antnio mostrar  Marina o Jaj, sozinho num canto?
Mas tudo bem. Tudo timo, at... Porque o Antnio, bem... como outro dia Marina ouvira o pai dizendo de uma oportunidade de negcio, "at que no era de se jogar 
fora..." Um cara boa-pinta, com cabelo bem preto e liso caindo na testa a toda hora, olhos grandes, nariz reto, e um sorriso... um sorriso perfeito, era o mnimo 
que se podia dizer! Na certa era por isso que ele era meio metido a besta, nunca dava muita confiana para o pessoal do prdio. Cntia dizia que a toda hora tinha 
menina telefonando e chamando para sair, por isso ele no parava em casa.
E agora Marina ia danar com ele... Nada mal!
Foi uma festa muito divertida. Diferente de todas as festas a que eles j tinham ido. Teve fogueira de verdade, coisa que alguns nunca tinham visto. Teve umas comidas 
deliciosas e diferentonas, alm dos cachorros-quentes de sempre. Teve fogos fantsticos, parecia at rveillon, o tal do Tio Fogueteiro era mesmo bom no assunto. 
Teve um tal de "tirar a sorte" de Santo Antnio, umas brincadeiras engraadas que os avs de Marta e Bia ensinaram. E, principalmente, teve uma poro de surpresas, 
por causa da quadrilha.
A surpresa da Marina foi com o Antnio, que desde antes da quadrilha estava todo cheio de gentilezas. Na beira da piscina, quando foi buscar refrigerante, trouxe 
para ela tambm. Ofereceu protetor solar para ela passar no rosto. E mais tarde, quando o Rafael fez mais uma de suas eternas piadas sobre o aparelho de dentes da 
irm, dizendo que ele ia atrapalhar as pessoas na hora de verem os fogos, de tanto que brilhava, o Antnio cortou, com o maior ar de desprezo:
- P, Rafa, mas que criancice voc ficar dizendo essas coisas... No tem nada demais usar aparelho. Eu usei durante anos. Um dia a gente tira e os dentes esto numa 
boa.
"Deus, esse sorriso perfeito  resultado de aparelho!", pensou Marina. "Animador..." E prestou mais ateno no dono do sorriso, que conclua:
- Muito pior  quem fica falando mole e no conserta nunca.
Todo mundo entendeu que era uma indireta para o jeito insuportvel da Madalena falar, que o Rafael ficava ouvindo e babando como se estivesse se deliciando com 
um show musical.

E o Antnio ainda continuou:
- E mesmo enquanto no tira, o aparelho d um jeito meio brincalho que fica muito legal em certas meninas...
No falou no nome de Marina, mas lanou para ela um olhar rpido, de um jeito to inesperado, que ela sentiu o corao bater mais forte. Que era aquilo? Estava ficando 
maluca?
Na hora do almoo, Antnio veio sentar perto dela e comeou a puxar conversa. Falou que era o dia do santo dele, e que em alguns pases as pessoas ganham presente 
nesse dia, como se fosse aniversrio... Mas que ele no precisava, j tinha ganho... No disse o que era, e ela tambm no perguntou. Depois ele falou sobre a quadrilha, 
dizendo que nunca mais tinha danado aquilo, desde o jardim-de-infncia, tinha medo de errar, esperava que ela soubesse os passos e ajudasse... e acabou dizendo 
que foi por isso que ele dissera  Cntia que s danava se fosse com ela ou Marina, as meninas que ele conhecia melhor ali naquele stio...
Marina ficou meio intrigada. Ento o Antnio estava contando que escolheu a irm de propsito? Mas praticamente no tinha sido ele mesmo quem fez a Marina chamar 
o Jaj para danar? Ou ser que foi tudo uma espcie de plano, bem pensado, s para depois a Cntia vir trocar os pares? Nesse caso, teria sido ele quem sugeriu 
a troca  irm? Nem precisava, alis... Conhecendo bem a Cntia, era s dizer a ela que o Jaj estava na quadrilha com sua maior amiga. Ela mesma ia querer trocar... 
Ser?
O resto da tarde, Marina ficou remoendo essas idias na cabea. No deu jeito de descobrir diretamente numa conversa com a Cntia, sempre tinha muita gente junto. 
Mas, de vez em quando, olhava meio disfarada em direo ao Antnio. E algumas vezes, ou melhor, QUASE TODAS AS VEZES, ele estava olhando para ela tambm. Era at 
engraado. Eles mesmos j achavam graa, sorriam um para o outro com aquela coincidncia. E da a pouco se olhavam de novo. Como se um controle remoto estivesse 
ligando os dois, invisvel, de longe, pelo meio de toda aquela gente.
Na hora da dana, era como se fossem velhos amigos, como se num nico dia eles tivessem compensado todos aqueles anos em que moravam no mesmo prdio, se cruzavam 
no elevador ou na portaria, se cumprimentavam distrados na sala da Cntia quando Marina ia estudar l, mas nunca tinham parado para se olhar de verdade, se sorrir, 
conversar... Num instante, tudo parecia a coisa mais natural do mundo. Marina no se espantava mais com toda aquela ateno do Antnio para ela, nem achava que estava 
ficando maluca porque sentia a garganta seca ou seu corao disparava com uns
olhares ou umas palavras dele. S queria, torcia, rezava para ele estar sentindo alguma coisa parecida.
Devia estar. Porque a quadrilha foi o mximo. E, quando acabou, ele no soltou a mo da menina. Chamou-para irem comer e beber alguma coisa. Passou o brao por cima 
do ombro dela, rindo, enquanto conversavam com os amigos. E quando ela inclinou a cabea para o lado dele ouviu a voz do Antnio em seu ouvido:
-  to legal esse teu jeito de sorrir...
Assim, ela nem tinha vergonha do aparelho nos dentes. Era fcil sorrir, olhar para ele, danar. Tinha vontade de sair rodopiando, sapateando, dando saltos pelo meio 
das estrelas no cu, tantas, tantas...
Algum a chamou no meio de um grupo. Ela fez um gesto, como se fosse at 
l, mas Antnio a puxou pela mo.

- No vai, no... Fica comigo... Ela ficou.
Pouco depois Cntia e Jaj se aproximaram, tambm juntos e de mos dadas, sorrindo.
- At que enfim! - exclamou Cntia para o irmo. - Eu estava te procurando para voc nos explicar essas estrelas todas. Voc sabia, Marina, que meu irmo  manaco 
por astronomia?
Claro, a luneta no terrao, lembrou ela.
- Aquelas ali, meio juntas, formam o Escorpio, que muita gente chama de Sete-Estrelo - mostrou Antnio. - Ali adiante, esto vendo?, bem brilhantes, ficam as Trs 
Marias... E ali, bem fcil de ver, est o Cruzeiro do Sul. Vamos ver se vocs aprendem e no esquecem...
No ia esquecer nunca, pensou Marina. Do dia todo, da festa, dos olhares, da quadrilha inesquecvel - bendita dona Elza, bendito Tio Fogueteiro... Porque podia 
passar muito tempo, mas ela sempre ia lembrar daquele Santo Antnio com o Antnio, e dos dois pares ali, abraados, de nariz para o cu. Para sempre no corao, 
o Cruzeiro do Sul em Cerro Azul.


7. Uma coisa de cada vez


Tudo foi novo para Cntia naquelas frias de julho. E ela nem ao menos foi para uma colnia de frias ou viajou.
A principal novidade, claro, foi o Jaj na sua vida. Desde a festa da Marta, eles estavam muito mais prximos. Que estava gostando dele, no era mais segredo para 
ela mesma nem para ningum. Mas tudo tinha ficado s nisso - uma amizade especial. No era como Antnio e Marina, que tinham comeado a namorar, assim direto, logo 
depois da quadrilha. Cntia e Jaj, no. Claro que houve um clima diferente na festa, mas no passou disso. No que ela no estivesse interessada em ir adiante. 
Mas ele? Como se sentia? Era s impresso da menina ou Jaj tambm estava gostando dela? Cntia adoraria ter certeza.
S que no conseguia. Ele nunca a procurava.
Mas no colgio sempre dava um jeito de estar perto dela, no meio dos outros colegas. E depois, quando as aulas acabaram e vieram as frias, toda
vez que o elevador subia at a cobertura devia fazer algum barulho diferente perto do apartamento do porteiro, porque o Jaj abria a porta e se despencava escada 
abaixo. Daquele jeito dele, de dois em dois degraus. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Ou ento, se estava na oficina de conserto de pranchas, em poucos passos chegava 
 portaria. O certo era que, sempre que Cntia saa de casa, descia e abria a porta do elevador no trreo, j encontrava com ele "por acaso" bem ali, meio ofegante 
da corrida, mas pronto para dar um sorriso e comear uma conversa. Gaguejando um bocado nos primeiros minutos, verdade. Mas ficando mais  vontade aos poucos.
S que essas conversas eram iguais s de antes do aniversrio da Marta, sem nenhum assunto especial. Ele nem ao menos comentou sobre a festa! Todas as vezes que 
Cntia tocou nesse assunto, Jaj gaguejou e desconversou. Como se estivesse arrependido. Ou envergonhado. Ou qualquer coisa assim. Ou como se no tivesse gostado 
de ficar com ela e quisesse apagar isso da lembrana. Mas ento por que no sumia, no se escondia dela, no evitava encontr-la?
Nada disso. Toda vez que ela saa de casa e abria a porta do elevador no trreo, dava de cara com o Jaj. Mas ficava s nesses encontros.
No fim dos primeiros cinco dias de frias, Cntia no agentou mais. Resolveu tomar providncias. No estava disposta a continuar igual 'aquele passarinho-cuco do 
relgio de Cerro Azul, saindo de casa de hora em hora, s para cruzar com o Jaj na portaria. Nem tinha mais pretexto para inventar - comprar po, tomar um sorvete, 
ver se j tinha chegado o nmero novo de uma revista no
jornaleiro, procurar alguma coisa no carro do pai na garagem, apanhar correspondncia para a me, ir at o shopping, procurar os culos escuros "que ela devia ter 
deixado cair em algum lugar..."
E assim, na sexta-feira, l pelas onze da manh, quando a luzinha do painel que marcava os andares por onde passava o elevador foi completando seu passeio, saindo 
do 3, passando pelo 2, pelo 1, pelo P (de Playground ou de Porteiro?) e chegando ao T de Trreo... aconteceu algo diferente.
Abriu-se a porta - como sempre. O Jaj estava bem em frente - como sempre, agora. A Cntia saiu l de dentro - como noventa por cento das vezes em que o elevador 
andara na ltima semana. Mas dessa vez ela perguntou  queima-roupa:
- Jaj, quer ir ao cinema hoje comigo?

O que ele gaguejou, no d nem para imitar. A gente ia ter que ficar enchendo pginas de alguma coisa assim:
- Qqqqqque-que-que... qqqqqu-qu... nnnno, quer dizer, qqqquero, mmmmas... nnnno... pppp...
A Cntia levou um tempo para entender que era algo parecido com "Querer, quero, mas no posso". Mas no estava com pressa. Pelo contrrio, dessa vez estava resolvida 
a ter muita calma e entender a situao. Tinha tempo. Nem inventou que estava saindo para ir ao jornaleiro. S perguntou por que ele no podia - e aos poucos, no 
meio de tanta gagueira e nervosismo dele, foi entendendo.
O caso  que o Jaj no estava de frias como os outros. S estava era sem aulas no colgio. Mas ia trabalhar por trs semanas no supermercado, cobrindo uma licena 
de algum. E enquanto isso no
comeava (o que seria na segunda-feira seguinte) tratava de apressar todos os consertos de prancha que tinha para fazer.
- Para esvaziar a oficina de trabalho acumulado. E garantir alguma grana... - explicou ele, j sem gaguejos.
- Mas voc vai passar as frias todas trabalhando? No vai descansar? - estranhou Cntia.
- Eu j descanso o ano inteiro, Cntia, no colgio. Em vez de trabalhar para ajudar meus pais. Agora  hora de dar uma mo a eles.
E concluiu, com aquele jeito bem dele:
-  justo... Ela insistiu:
- E nos fins de semana?
- A, sim, tudo bem. Trabalho aos sbados, mas vou ter os domingos livres - respondeu ele. - E mais este fim de semana inteirinho...
Ela no estava disposta a deixar passar:
- Ento a gente pode ir ao cinema no sbado ou no domingo...
Mais uma vez, ele disse:
- No posso.
Todo sorridente, explicou por qu:
- Este fim de semana  o campeonato.
- Campeonato?
- ... De surfe. Na Praia Brava. Com sorte, eu tenho chance.
E, finalmente, uma Cntia incrdula ouviu o convite:
- No quer vir comigo, para ver? Mas tem que acordar muito cedo...
E foi assim que ela se viu madrugando num sbado de inverno, ainda escuro, prestes a comear as
frias mais diferentes de sua vida. Umas frias feitas de uma sucesso de dias em que no acontecia nada, porque o Jaj estava trabalhando, mas a cada domingo os 
dois passavam o dia juntos. Se  que se pode considerar juntos - ela na areia conversando com as outras meninas e dando um mergulho de vez em quando, ele o tempo 
quase todo na gua, montado numa prancha  espera de onda, ou de p, deslizando sobre o mar a uma velocidade de tirar o flego.
Mas valeu a pena. Pelo menos, os dois acharam. Namorar mesmo, no namoraram. Mas ficaram cada vez mais amigos, numa ligao muito especial. Conversaram muito, Jaj 
foi perdendo a gagueira e a timidez com ela, Cntia foi entendendo 
melhor a vida dele e conhecendo o mundo do surfe, com horrios e gostos diferentes e at uma linguagem quase secreta.
Logo naquela primeira madrugada, quando estavam amarrando as pranchas no rack do carro do irmo do Codaque, a caminho da Praia Brava, o Jaj apresentou Cntia aos 
outros:
- Esta  a Cntia, amiga minha e do Rafael, aqui do prdio. Ela mora na cobertura...
- Na cobertura? - repetiu o Quico, irmo do Codaque. - L no alto? Com vista para o mar?
- ... - confirmou ela, sem entender o espanto.
- Oba! Ento a gente pode ligar para voc cedinho, para saber se tassuel ou taflete.
- O qu? - repetiu Cntia, sem entender nada. Em meio  gargalhada geral, Rafael explicou.
Surfista  cheio de grias e palavras em ingls. Sempre bem cedo, antes de sarem para surfar, eles gostavam de saber onde estavam as melhores ondas. E quem visse 
o mar podia avaliar seu aspecto e dizer se estava swell (cheio) ou flat (lisinho, sem ondas).
- Ah, bom... - disse ela. - Agora s falta eu aprender a conhecer quando  swe e quando  flat...
Foi rpido. Na segunda-feira seguinte j sabia. Aprendera tambm muitos outros termos, fizera novos amigos. E ficara sabendo como o J j era fera, ganhando mais 
um trofu para sua famosa prateleira.
Mas ela, na areia, tinha ficado meio nervosa e preocupada. Cada onda imensa! Parecia to perigoso... A toda hora, ficava com medo de que o J j se machucasse, 
de que aquela crista de espuma se apressasse um pouquinho mais e quebrasse em cima dele, enrolando tudo e arrastando para o fundo. Mas no, parecia que ele fazia 
parte do mar, sempre estava no ponto perfeito para pegar impulso e descer na onda, deslizando sobre a imensido verde. Em seguida, deitava em cima da prancha e voltava 
l para longe, com braadas vigorosas. E se misturava a uma poro de outros vultos, distantes, surfistas  espera, parecendo sentados na gua. At a prxima onda, 
a prxima descida vertiginosa at a praia.
Cntia nunca dedicara tanto tempo a ficar contemplando o mar, observando as nuvens, estudando 
as ondas e as mudanas de vento. Nunca antes percebera a ligao entre 
o relgio e as mars, o calendrio e as fases da lua. Ou a influncia disso tudo nas variaes do mar. Na verdade, nunca tinha reparado que o mar pudesse ser to 
variado. Ou que, mesmo parecendo imprevisvel, desse tantos sinais das mudanas que vinham a caminho. Com Jaj e os outros surfistas, foi aprendendo a conhecer tudo 
isso. A ler uma linguagem diferente, escrita na gua e no cu.
Mas achava que as principais mudanas desse ms tinham sido dentro dela mesma. Coisas que foi
aprendendo com o prprio mar, que ela achava que conhecia to bem, por ter nascido e se criado junto a ele. Mas que agora vivia de outra forma. Praia no era mais 
apenas um lugar de se bronzear e encontrar um monte de gente. Era muito mais. E ela mesma no sabia explicar, quando tentou.
- Desculpe eu ter demorado. Voc deve ter ficado meio chateada, a esperando, sem nada para fazer... Domingo passado, pelo menos, tinha o campeonato, e era emocionante... 
- dissera o Jaj.
- No tem nada para se desculpar. No estou chateada e at curti muito, ficar aqui olhando o mar e pensando na vida... - respondeu ela.

- De verdade?
- De verdade, garanto. A gente olha assim esse horizonte todo e at percebe como a Terra  redonda... E como tudo  grande, tanto espao, s a gente  que  pequena...
- Ah, isso  mesmo... - concordou ele. - L fora, no meio do mar, com as coisas da terra pequenas l longe, essa certeza ainda  mais forte. A gua fica bem verde, 
no d nem para imaginar o fundo dela. No d para ficar indiferente. O cara sente que  uma coisinha -toa, que aquela gua toda est cheia de vida, mesmo no dando 
para ver quase nada, s um peixe ou outro de vez em quando.
- Voc no tem medo? De tubaro, por exemplo? De vez em quando tem uns casos de surfista que  atacado.
- Claro que tenho medo - admitiu ele. - Acho que todo surfista tem o maior grilo com isso. Sei l, eu nunca teria coragem de ir surfar nesses lugares onde costuma 
aparecer tubaro. Mas aqui nunca houve.
Fez uma pausa e contou:
- J vi uma arraia enorme saltando para fora da gua. E uns golfinhos. Mas o que a gente sempre encontra, logo cedo,  tartaruga. Quem chega primeiro sempre v. 
Elas aparecem quando chegam as primeiras pranchas. Botam a cabea pra fora d'gua, pertinho da 
gente, algumas vezes, sempre em bando. Respiram forte, fazem um barulhinho... 
pf... jogam pra cima uma baforada de gotinhas, feito uma chuva... Depois vo embora. Como se estivessem s vendo quem  e cumprimentando. Tem umas imensas, mas 
no fazem mal nenhum.
Cntia achou lindo. Depois comentou:
- Pois  mais ou menos isso o que eu fico aqui pensando. No nas tartarugas, claro. Eu nem sabia delas. Mas fico imaginando quanta coisa tem no mar e que a gente 
nem sonha... Gaivota, por exemplo. De repente surge um bando, voando e mergulhando na gua. Onde  que elas estavam antes? De onde vieram? No tem nenhuma ilha por 
aqui... Ser que elas ficam na praia mesmo? Ou descansam pousadas na gua?
- ... o mar  cheio de mistrios...
- E muda muito tambm - continuou ela. - Tem vezes que parece que esto muitos mares juntos ao mesmo tempo.  s ter umas nuvens no cu
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fazendo sombras diferentes. A ele fica cinzento numa parte, azul-escuro em outra, verde-clarinho onde bate o sol... Jaj brincou:
- Deixa s o Quico ouvir isso. Vai querer te ensinar uns macetes e te contratar para ficar fazendo previso do estado do mar de madrugada...
- Acho  que  nessas  imensides  assim tem muita coisa que a gente nem desconfia... e que no d para a gente prever... - disse ela, sonhadora.
Fez uma pausa, olhou bem sria para ele e acrescentou:
-  que nem a gente, Jaj... Dava para prever que ns amos ficar assim to amigos?
Ele ficou calado. No queria dizer que sempre tinha sonhado em se aproximar dela, mas nem ousava imaginar que podia acontecer mesmo. Mas tambm no queria que ela 
desconfiasse de que ele estava comeando a ter problemas em casa por causa dessa proximidade. Ainda na vspera, a me lhe perguntara:
- Meu filho, voc no acha que a me dessa menina a da cobertura pode no gostar de ver ela andando com voc de um lado para o outro?
- A gente  colega de colgio, me, ela  da minha sala, no tem nada demais. E ela no est andando comigo,  uma turma, eu acho  que ela agora se aproximou muito 
porque deve andar meio interessada no Rafael, do 201... - disfarou ele.
- Sei no... No  o que parece. E se os pais dela resolverem implicar, pode dar problema. Gente rica  toda cheia de coisa, de repente cria um caso, e sobra para 
ns...
Ouvindo isso, o pai, que ainda no tinha reparado em nada, mudou o tom da conversa:
- Veja l, hein? No v me fazer perder o
emprego...
O menino sabia que os pais tinham razo. E que o emprego era muito mais que apenas um salrio certo e seguro - era casa para morar, e perto do colgio onde ele conseguira 
uma bolsa. Se acontecesse alguma coisa, ficavam sem dinheiro, sem teto, sem escola. Sabia que precisava ter cuidado. Se a famlia da Cntia comeasse a implicar, 
a coisa toda podia acabar muito mal. Mas Jaj tinha esperanas de que assim, no meio da turma, com o Rafael ao lado, eles no chamassem a ateno. E s saam mesmo 
aos domingos, os outros dias eram de muito trabalho.

- Falei com voc, no ouviu? - Cntia interrompeu seus pensamentos. - Ento repito: voc imaginava que um dia ns amos ficar assim to ligados? Ou foi inesperado 
como os mistrios do mar?
Jaj fez de conta que no entendia:
- No, eu acho que a gente sempre foi ligado, n?  Morando no  mesmo  prdio,  estudando  na mesma sala... No tem nada misterioso nisso...
Cntia insistiu:
- Ah, ? Ento por que  que no  a Marina que est aqui com voc agora?
- Sei l... Vai ver,  porque ela no quer sair na mesma turma que o Rafael. Aqueles dois so engraados, um est sempre implicando com o outro...
- Ento quer dizer que podia mesmo ser qualquer garota, no tem mistrio nenhum, nada a ver com o mar...
No era imaginao do Jaj. O tom de voz da Cntia estava diferente. E isso ele no queria. Situao difcil, ele ficava perdido, sem saber o que fazer. No queria 
arrumar problema para o emprego
do pai. No queria ficar criando coisas na prpria cabea, imaginando uma situao impossvel ou se iludindo com sentimentos dela que podiam no ser verdade. Mas, 
principalmente, no queria machucar a Cntia, deix-la com aquele tom de voz triste de repente, um olhar molhado, como se estivesse com um cisco na vista... Antes 
de pensar, j tinha dito, num de seus impulsos:
- No! S podia ser voc!
- Por qu? - provocou ela.
- Por tudo. Porque voc  desse jeito. E porque tem tudo a ver com o mar. Quando o cara menos espera, pode aparecer uma correnteza que puxa, carrega com fora, e 
por mais que ele tente nadar para longe, no consegue...
- E a? O que  que acontece?
- Ou o cara se afoga, ou desiste de lutar e deixa a correnteza levar, at ela perder a fora e ele poder sair fora... s vezes l longe da praia...
Com o corao batendo forte, Cntia voltou  carga:
- E voc j se afogou?
- Ainda no. Mas tambm no desisti de nadar... Quem sabe se eu consigo?
Cntia ia perguntar por que ele queria tanto lutar contra a correnteza. Mas bem nessa hora chegou Rafael, reclamando:
- P, cara, pensei que voc j tinha guardado tudo! Veio na frente para adiantar e no fez nada...
- Desculpe, a gente ficou conversando... - explicou Cntia.
Jaj no explicou nada. No disse uma palavra. J tinha falado demais, muito mais do que queria. Foi recolhendo as coisas, amarrando as pranchas no
rack, e ficou em silncio durante toda a volta para casa. Era coisa demais! Colgio, oficina, supermercado, campeonato de surfe... Trabalho, estudo, a vida para 
resolver, e agora mais essa... Tudo junto! Queria era poder pensar em uma coisa de cada vez. E ainda diziam que ele era o garoto do tudo-ao-mesmotempo-agora..

8. Fome e sede de justia

- Est levando um agasalho?
- No precisa, me. Est calor - respondeu Marina, j na porta para sair.
- De noitinha esfria...
Ser que toda me era assim? A dela tinha mania, no era possvel. Toda vez era essa conversa, no esquea o casaco... E mesmo quando estava resolvida a esquecer, 
como agora, no adiantava. L vinha ela, recomendando:
- Tome. Ponha na mochila. Mais tarde voc pode querer. Agosto  sempre meio frio, minha filha...
Adiantava dizer que no sentia frio? O melhor era no discutir, amarrar o moletom na cintura e ir em frente. Antnio j devia estar l embaixo, esperando. Iam juntos 
at o ponto do nibus, depois ele seguia para o cursinho e ela ia  aula de Ingls.
Na portaria, passou por duas vizinhas to entretidas na conversa, que mal responderam a seu boatarde. Marina s ouviu uns pedaos da conversa, da me da Bia com 
a mulher do sndico:
- ... uma vergonha! Boa coisa no pode ser! Para vir um oficial de Justia procurar por eles em casa...
- Artista  assim mesmo, vive se metendo em escndalo!
A caminho do nibus, Antnio contou o que ouvira enquanto esperava por ela. Tinha estado no prdio pouco antes um oficial de Justia, trazendo uma intimao judicial 
para a Mirella, do 201. Ningum sabia por qu.
- Mas tambm ningum tem nada a ver com isso... - comentou Marina.
- No tem mesmo - concordou Antnio, mudando de assunto. -  hoje que voc vai ao dentista?
- No,  na outra tera. No agento mais de ansiedade. Levei tanto tempo com este aparelho que nem acredito que vou tirar...
- Voc vai estranhar muito, no comeo. Parece que tudo fica mais leve, mais sensvel dentro da boca - disse ele, com a experincia de quem j passara por aquilo.
- Mas o chato  que vou ter que usar aparelho mvel por mais uns meses, a dentista j avisou.

-  chato, mas passa logo. E j d para ver como a boca ficou, anima um pouco... Voc vai ficar linda, vai ver s...
Quando o Antnio falava daquele jeito, dava at para acreditar. Podia nem ser verdade, mas era bom ouvir. Alis, era bom conversar com ele, sempre. Ficavam to distrados 
que nem viam o tempo passar.
De repente, l vinha o nibus. Uma despedida rpida, e cada um foi para seu lado.
De noite, em casa, Marina soube do que tinha acontecido com a vizinha. A me contava ao pai o
que tinha ouvido da Zilda, empregada. E a menina ficou sabendo que o tal oficial de Justia viera trazer  Mirella uma intimao para uma audincia na Justia do 
Trabalho. A atriz estava sendo processada por no pagar frias nem dcimo terceiro salrio  empregada. E parece que ainda havia uns meses de salrios atrasados.
- Mas ela est mesmo errada... - disse o pai. - Tem que pagar.  um direito do trabalhador.
- Puxa, quem diria? - comentou Marina. - Nunca pensei... A Nilce sempre fala to bem da Mirella que eu sempre achei que ela devia ser bem tratada.
- Mas  - esclareceu a me. - O caso no  com a Nilce,  com a outra. Uma tal de Adriana.
- Mas a Mirella no tem nenhuma empregada chamada Adriana... - estranhou Marina. - S se for uma diarista que veio quando a Nilce foi ter nenm...
- Sei l, foi o que a Zilda me contou...
O assunto podia ter morrido a. Mais um dos interminveis papos de cozinha entre a Nilce e a Zilda, que Marina no tinha a menor pacincia para acompanhar.
Mas da a alguns dias, quando voltavam do colgio, a Cntia comentou:
- Puxa, que sujeira da Zilda, hein? Nunca pensei...
Quando viu que Marina olhava para ela com cara de quem no estava entendendo nada, tratou de explicar. O tal processo era mesmo movido pela ex-diarista. A Adriana 
tinha ido  Justia, dizendo que tinha trabalhado anos para a Mirella e ficara sem receber uma poro de coisas.
- A Zilda sabe que  mentira, que a Adriana s veio umas vezes, fez umas faxinas e no voltou, porque no deu muito certo... A Zilda  vizinha da Adriana, foi quem 
arrumou essas faxinas para ela fazer. Mas no quer ser testemunha no processo. E meu pai disse que sem testemunha fica difcil a Mirella comprovar que  inocente. 
Parece que a Adriana tem provas documentais... Pode complicar muito...
O pai da Cntia era advogado. Por isso ela estava acostumada a ouvir falar em testemunha, processo, prova documental, essas coisas...
- Voc bem que podia dar um toque na Zilda... - pediu a Cntia. - Coitada da Mirella! Periga pagar por uma coisa que no fez.
- Tudo bem, eu falo com ela - concordou Marina.
No custava nada tentar. At mesmo porque no acreditava que a Zilda se recusasse a ajudar. Era boa gente, direita, amiga... no podia ser verdade aquilo que 
a Cntia estava dizendo.
De tarde, Marina sentou com Zilda junto  mesa da cozinha, enquanto tomavam um caf. Puxou o assunto. E levou um susto com a reao da outra:
- Nem vem com esse papo, Marina. Me deixe de fora dessa histria... Essa mulher no presta!
- Como voc pode dizer uma coisa dessas, Zilda? A gente conhece a Mirella h um tempo, ela nunca...
- No  ela que no presta,  a Adriana! E desatou a chorar, acrescentando:
- E pensar que fui eu quem trouxe ela para c... Criei uma cobra que saiu dando bote e mordendo as pessoas... Mas eu no podia adivinhar. S conhecia a
Adriana l de onde a gente mora... Ela parecia uma pessoa legal, veio com uma conversa de que estava precisando muito de trabalho, qualquer coisa servia... Veio 
aqui tratar at antes do dia que eu falei... E o tempo todo j estava preparando o golpe, armando tudo... Foi tudo culpa minha!
Era difcil interromper a Zilda quando comeava a falar. Mas Marina tentou:
- Espere a, no fique assim... Voc no sabia... Mas agora pode dar um jeito.  s ir com a Mirella l na frente do juiz e contar a verdade.
A mesmo  que a Zilda chorava mais:
- Ah, Marina, isso eu no posso, de jeito nenhum! A Adriana anda com uns caras da pesada,
uma gente perigosa... E j me disse que, se eu ficar contra ela, vou ver s o que me acontece... Eu no posso. Eu tenho minha casa l perto dela. Meus filhos. Minha 
me. Passo o dia aqui trabalhando e eles ficam l sozinhos. Sabe l o que pode acontecer com eles se eu abrir a boca? E comigo? No quero nem pensar... Eu volto 
pra casa de noite, saio cedinho, passo por aquelas ruas escuras... a coisa mais fcil do mundo  depois aparecer morta num matagal com a boca cheia de formiga...
Soluou um bocado e concluiu:
- Se for preciso, s pra defender minha famlia, eu at sou capaz de jurar que ela trabalhou aqui uns trs anos!  jura falsa, mas eu sei que Deus me perdoa!
Marina ia dizer o qu? Morria de pena da Mirella, mas entendia o lado da Zilda. No podia insistir mais.
E, para falar a verdade, j estava atrasada e com a cabea em outra coisa. Era, finalmente, o grande dia. Ia tirar o aparelho dos dentes!
Foi  dentista, segurando a ansiedade enquanto a moa trabalhava. Depois recebeu o espelho na mo, para se olhar. Estava mesmo bem diferente. Mas nem deu tempo para 
ver tudo o que queria. Por ela, ficava uma hora examinando todos os detalhes, dando sorrisos e se olhando de todos os ngulos, mas a dentista foi logo abaixando 
a cadeira, enquanto fazia mil recomendaes que Marina mal registrava. Ainda bem que a me estava com ela, prestando ateno em tudo, para repetir mais tarde.

Depois que chegaram em casa, a menina foi para o quarto, abriu a porta do armrio onde havia um espelho grande e ficou se olhando. Era verdade,
estava muito melhor. Parecia que no tinha mudado s os dentes, mas a cara toda.
S que agora no tinha mais a desculpa do aparelho para se sentir meio esquisita... mas ainda se sentia. Queria ter uma cara linda, como a daquelas meninas que saam 
nas revistas. Reconhecia que os olhos at que eram bonitos, grandes, castanhos bem clarinhos. Mas achava que tinha o nariz feio, um pouco achatado. Agora ainda estava 
pior, com uma espinha querendo nascer bem na base dele, num cantinho. Desconfiava que as sobrancelhas eram grossas demais. E o cabelo, bem... Era um desastre! Nunca 
ficava liso e escorrido como as fotos nas revistas ou as apresentadoras do noticirio na televiso. Mas tambm no era encaracolado, todo cacheado e esvoaante como 
o de muitas atrizes e modelos. Nada disso. J experimentara cortar mais curto ou deixar crescer mais, mas no adiantava. Em qualquer comprimento, ficava sempre naquele 
meiotermo, nem liso nem cacheado, com umas ondas que se formavam de vez em quando, completamente fora de moda... Quer dizer, podia ter tirado o aparelho e melhorado 
a boca, mas nem por isso se achava bonita de verdade, como queria ser e se imaginava por dentro. Quando o espelho l fora no mostrava a realidade, dava vontade 
de chorar.
- Marina, a Cntia est a! - a me anunciou, gritando no corredor e interrompendo suas reflexes.
A amiga j vinha entrando pelo quarto:
- Puxa, deixa eu ver, d um sorriso... Ficou timo! Marina, meu irmo que se cuide... Est uma gracinha! Voc vai arrasar os coraes...
- No acho - respondeu, meio emburrada.
Mas Cntia j mudava de assunto. Falava do Jaj, claro. E do processo da Mirella, porque agora os dois assuntos viviam misturados.  que, evidentemente, o Justiceiro 
do Ea (e do prdio) agora vivia todo metido nessa histria da intimao, tentando descobrir um jeito de ajudar a Mirella. J tinha ido duas vezes at a casa da 
Cntia conversar com o pai dela, que era quem estava defendendo a atriz no processo. Depois dessas conversas, Jaj tentara convencer os pais dele a depor como testemunhas, 
atestando que a Adriana no trabalhava nem nunca tinha trabalhado fixo para a Mirella, s estivera algumas vezes no prdio, como diarista. Mas no deu certo, no 
conseguiu.
- O Jaj est  chateadssimo  com  os  pais, Marina. Eles no vo depor, de jeito nenhum.

- E por qu?
- No d para entender direito. Parece que o pai dele diz que a Adriana  como eles, todos so trabalhadores,  e eles no tm nada que  defender patro.
- Que idia mais esquisita...
- Pois ... E no adiantou nada o Jaj argumentar que a Mirella tambm  uma trabalhadora. O seu Nilson  muito teimoso, acha que ser atriz no  trabalho de verdade.
- S porque ela sai na televiso?
- E nos jornais. Toda hora tem entrevista, fotografia, gente pedindo autgrafo... Para ele, a Mirella  uma estrela, uma coisa do outro mundo. Rica, famosa e patroa. 
Ele est do outro lado.
- Mas no tem nada que a gente possa fazer?
- Sei l... Eu at sugeri ao Jaj e ao meu pai que a gente podia dar um toque no sndico.
- Como assim?
- Bom, j que o negcio  entre patro e empregado, o seu Nilson  contratado do condomnio, no ? Ento, se o patro, quer dizer, o seu Euclides, que  sndico, 
ameaasse de botar ele na rua se ficar com essas besteiras, aposto que ele ia depor...
Marina levou um susto.
- Cntia, como  que voc pode pensar numa coisa dessas? Ameaar o pai do Jaj de perder o emprego injustamente...
- Besteira. Ningum ia perder o emprego. Era mentira, s uma forma de presso. Mas pode ficar tranqila. Meu pai ficou ainda mais horrorizado que voc, disse que 
isso no  tico, que era a maior tristeza ver uma filha querer fazer chantagem, montes de coisas... Me deu a maior bronca.
- E o Jaj?
- Disse que estava tendo uma decepo comigo,  nunca  esperava,  que  eu  assim  fico  igual   Adriana... recorrendo a qualquer meio para conseguir as coisas... 
Tive que ouvir a maior lio de moral. E, o que  pior, est me dando o maior gelo. Depois dessa a gente no est mais do mesmo jeito que antes. Ele mal fala comigo...
- Conversa com ele, Cntia, explica que no  nada disso...
A outra ficou furiosa:
- Mas a  que vocs se enganam. Voc, meu pai e o Jaj.  exatamente isso, Marina! Eu acho que o nico jeito de ganhar da Adriana  ser igual a ela.  preciso dar 
uma surra naquela filha da me, como ela ameaou fazer com a Zilda. Ou ento aprontar alguma no processo, para mostrar que ningum tem
medo dela... Do jeito que fica todo mundo querendo bancar o santinho, a Mirella no fim vai perder.
- E  muita grana que ela vai ter que pagar? Cntia ficou alguns instantes em  silncio e
depois olhou bem nos olhos de Marina, dizendo:
- No adianta. Ningum est me entendendo. Nem meu pai, nem Jaj, nem voc. A questo no  quanto a Mirella vai ter que pagar. Isso nem tinha que entrar na discusso. 
A questo  que no est certo ela ter que pagar, mesmo que seja uma moedinha s, por uma coisa que no fez! S isso!

Virou as costas e saiu, gritando, como tantas vezes Marina j ouvira Jaj fazer:
- No  justo! No  justo!
Mas tambm no era justo ameaar seu Nilson para que ele fizesse uma coisa que no queria. Disso Marina tinha certeza. Essas coisas de justia eram muito difceis. 
Tinham muitos lados. Marina lembrou que uma vez, na igreja, ouvira um sermo em que o padre dizia: "Bem-aventurados os que tm fome e sede de justia, porque eles 
sero saciados". E tinha ficado pensando: todo mundo quer justia. Ser que s por isso todo mundo  bemaventurado?
Mas talvez todo mundo no quisesse justia com bastante fora. Com essa tal de fome e sede. S algumas pessoas devem ser assim. Especiais, meio raras. Jaj era uma 
delas. Com toda certeza.
Mas ser que algum dia essa fome e essa sede iam mesmo ser saciadas? Ser que dava para imaginar um tempo em que a justia ia mesmo ser feita e a alma podia ficar 
com uma sensao boa, igual ao corpo quando est de barriga cheia, acabou de tomar
gua fresca, e deita numa cama bem descansadinho? Ser que existe esse tipo de bem-estar? Algum j sentiu a alma toda gostosinha, metida num agasalho aconchegante, 
daqueles que a me sempre queria que ela usasse no corpo?


9. Falatrio de aniversrio

Finalmente, as pginas da agenda, viradas dia a dia, chegavam ao aniversrio. Desde o primeiro dia de setembro, Marina j sabia que agora faltava pouco para que 
aparecessem 
aquelas letras todas coloridas e enfeitadas, preparadas l no comeo do ano. Queria comemorar de algum jeito diferente, mas sem muita complicao. A me sugeriu 
que ela reunisse um grupo de amigos e fossem a uma pizzaria. Podia ser uma boa idia.
E foi. Muito divertido, at. Uma mesa enorme, todo mundo rindo e conversando. No comeo, os amigos tentaram evitar o assunto da Adriana e da Mirella, porque sabiam 
que o Jaj e a Cntia j tinham discutido muito por causa daquilo. Falaram da praia, de uns filmes, de uns e outros... Depois, de repente, a Marta perguntou:
- E aquela histria do short no colgio de vocs, ainda est rendendo?
- No, parece que st resolvido - disse a Cntia. - A gente vai poder usar bermuda.
No Ea de Queirs no havia uniforme completo, s uma camiseta com o logotipo do colgio. Mas era permitido usar qualquer tipo de cala comprida ou saia (se bem 
que ningum lembrasse de jamais ter visto uma nica aluna de saia). Quanto ao uso de short, bem... Como se disse na hora em que a discusso comeou, "o regulamento 
era omisso". Por isso mesmo, havia anos que se usava short sem nunca ter surgido nenhum problema. Mas de repente surgiu. A direo resolveu proibir, os alunos reagiram, 
acabou saindo uma greve. Ficaram dois dias sem entrar em sala, s reunidos no ptio ou na porta do colgio, em protesto, cheios de faixas e cartazes. Houve muito 
grito, discusses, ameaas de expulso... A maior confuso. Durante alguns dias, s se falou nisso, saiu at no jornal. Por isso, todos os amigos deles acabaram 
sabendo. At quem no estudava no Ea.
- Mas  tambm  que  pirao...  - disse  o Codaque. - Est todo mundo acostumado a vestir uma roupa, de repente d uma coisa na cabea de uma diretora maluca e da 
noite para o dia ela resolve proibir...
- No foi bem isso - esclareceu Marina. - Ningum nunca tinha usado uma roupa daquelas. A gente usava uns shorts mais compridinhos...
- E quem media? Tem emprego de fiscal de short para mim no Ea?
Foi uma risada geral. Mas o Rafael disse:
- Nem precisava medir,  Codaque... Apareceram uns que era s olhar e ver um pedao da bundinha... A olho nu... E bota nu nisso... Demais, cara!
- Pois , mas era to demais que ficou demais - disse a Cntia. - A acabou sendo proibido para todo mundo, de qualquer comprimento...
- Foi ento que o Justiceiro entrou em cena? - perguntou Bia, j encarnando no Jaj...
Meio envergonhado, ele se defendeu:
- Dessa vez eu nem me meti. No foi preciso. Todo mundo reagiu sozinho. As meninas mesmas  que comearam.
- As meninas s, no... - corrigiu Marina. - Vocs tambm foram atingidos. A proibio foi pra todo mundo. Cala comprida obrigatria.
- Agora at que d, no est to quente. Mas no vero, cara,  fogo... - disse o Cludio.
- Mas ento como  que resolveram afinal? A direo cedeu com medo da greve?
- Cedeu, nada! - disse Rafael. - E algum j viu direo de colgio ceder 
pra greve de aluno? A gente teve que fazer a maior negociao...
Cntia deu mais detalhes:
- Fizemos uma comisso que foi l argumentar. A dona Odete acabou concordando em voltar a deixar usar short, mas disse que ns tnhamos que merecer a confiana do 
colgio.
- Como assim?
- Ela se recusou a fixar um limite para o comprimento do short. Ficou por nossa conta. Entregue ao nosso bom senso, como ela ficava repetindo. Disse que era ridculo 
esse negcio de fixar centmetros... E que nem adianta, porque os alunos (principalmente as alunas) so de tamanhos diferentes e os centmetros que sobram numa podem 
faltar na outra...
- Ah, isso  verdade... - riu o Codaque. - T cheio de gente com sobras e faltas por a... Tem cada sobra fantstica...
- E ento? - insistiu Marta.
- Ela disse que ns sabamos perfeitamente o que pode ou no pode. "O que  compatvel com um uniforme escolar", como ela disse. E que podia permitir o uso de shorts 
e bermudas que fossem "compatveis".
- Ento ela cedeu!
- No... s por um lado. Porque a gente teve que admitir que, quando no estiver "compatvel", ela tem o direito de suspender...
- O short? Pensei que era abaixar... - brincou Codaque.
- No. Suspender a aluna, seu palhao. E, "em caso de reincidncia", pode acabar em expulso.
- Carto vermelho!
- Isso mesmo - disse Marina. - Mas pra quem no vai para o colgio se exibindo no prejudica nada. E era a gente que corria o risco de pagar o pato, tendo que usar 
cala comprida no auge do vero. Ficou uma coisa justa.
A um assunto puxou outro. Justia, negociao, pagar o pato... Era inevitvel. A prpria Marina, quando viu, j tinha perguntado:
- E aquela histria do processo da Mirella, hein, gente? Como  que est?
Bom, essa histria era menos conhecida. S o pessoal do prdio sabia. Para os de fora, Cntia fez um resumo. Contou do processo, da dificuldade de conseguir testemunhas. 
Todo mundo ficou interessado, porque a Mirella Morei era famosa, o Augusto Csar tambm e aquilo ia at acabar saindo nas revistas de fofoca que ficam falando da 
vida de quem trabalha na televiso.
- Vocs tm certeza de que ela  inocente? - perguntou o Cludio.
- Claro... A gente conhece todo mundo que mora ou trabalha l no prdio. Se a Adriana trabalhasse l h mais de um ano como est escrito na intimao, todo mundo 
sabia. Pode at ser que a Mirella tenha ficado devendo alguma coisa, isso eu no sei. Mas, se for,  pouco, no  caso para essa indenizao absurda que esto pedindo... 
- respondeu Cntia.
- Isso  inveja - disse a Bia. - S porque a Mirella  famosa.
- Minha me disse que existem umas verdadeiras quadrilhas para dar esse tipo de golpe - acrescentou Marta.
- Ento por que a Mirella no vai l no tribunal e jura que est dizendo a verdade?
- Mas ela jura. S que a Adriana tambm jura que trabalhou. Fica uma palavra contra a outra.

- E por que vocs no vo l e do uma fora?
- Porque menor no pode testemunhar... - explicou Cntia.
Fez-se um silncio e Bia comentou:
- Uma coisa que eu no entendo nessa histria  por que- que a Mirella tem que provar que  inocente. Sempre ouvi dizer que quem acusa  que tem que provar a culpa 
do outro.
- Eu tambm no sei - concordou Cntia. - Meu pai me explicou que nesses casos  comum a Justia ter mais tolerncia com o empregado, porque ele geralmente  a parte 
mais fraca e desprotegida... O patro  mais poderoso. Ento existem escritrios de advocacia que se especializaram em processar patres. Mesmo sem razo. E mesmo 
com uma acusao muito frouxa,  comum que se conte com a boa vontade de quem vai julgar.
- Esses advogados devem ganhar uma nota preta. Se algum processar empregado no deve ganhar nada... - comentou o Codaque. - Deve ser uma perda de tempo. Empregado 
vive duro, no tem mesmo dinheiro para pagar.
Aquela conversa incomodava o Jaj. Dava para ver. Ele trocava de posio na cadeira, mexia com os talheres, olhava para os lados... Claro, pensou Marina. Por um 
lado, ele  todo preocupado com a justia. Por outro,  filho do porteiro do prdio, empregado do condomnio - representado naquela mesa pelos filhos dos moradores. 
Era tambm uma situao de classe. Devia ter vontade de defender os dois lados.
A chegada do garom com outra rodada de pizza desviou as atenes. Todos se serviram, alguns pediram mais refrigerante. Depois, quando comearam a comer, de repente, 
o Jaj no agentou mais ficar calado. Enquanto cortava seu pedao de calabresa, comentou:
- Tambm no  bem assim... Eu acho que a gente pode admitir que a Mirella e a Adriana chegam diante do juiz em igualdade de condies. A palavra de uma contra a 
da outra, como j disseram aqui. A as duas vo falar, ou os advogados delas, e o juiz vai decidir quem  que est dizendo a verdade, na opinio dele. Mas com a 
experincia dele.
- Ento por que  que meu pai diz que a Mirella tem poucas chances se no tiver testemunhas? A Adriana tem alguma testemunha?
- Isso s vai se saber na hora. Mas, pelo que ela andou dizendo, tem provas documentais... - disse o Jaj. - E  isso o que preocupa.
- Explica melhor... - pediu Rafael.
- Ela diz que tem documentos provando que trabalhou um tempo para a Mirella.
- Como  que pode ter documento provando se no trabalhou? Ento  documento falso! A Mirella tem que provar isso...
- Claro que  falso! Mas a gente no sabe que documento . S vai saber na hora da audincia... - explicou o Jaj, que, pelo jeito, j estava to por dentro que 
se considerava parte da equipe de defesa. - E ento a Adriana conta com o efeito surpresa porque, como a gente no sabe o que ela pode apresentar, no tem como estar 
preparado para responder quele documento especfico...
- Sem querer interromper... mas j interrompendo... - disse o Antnio - lembro aos amigos para ningum se encher demais de pizza, porque as sobremesas aqui 
so fantsticas...
- Ento vou encerrar com este pedao, porque se tem coisa que o Antnio deve entender  de comida... - disse o Cludio, cruzando os talheres. - Nunca vou esquecer 
do famoso superlanche da casa dele, no dia em que a gente foi l estudar com a Cntia para aquele trabalho de grupo de Histria, lembra, Marina?
- Claro que lembro... - sorriu ela. - Mas o Antnio no estava.
E assim, sem mais nem menos, de repente, pensando naquela tarde s voltas com o reinado de D. Joo VI, veio bem ntida  memria de Marina a lembrana de um envelope 
com um autgrafo da Mirella para a Adriana...
- Pera, gente! Acabo de lembrar de uma coisa!
- Do superlanche? Mas foi mesmo inesquecvel... - brincou o Cludio.
- No! - exclamou ela. -Jaj, naquele dia em que ns estudamos l, voc no deixou um envelope para a Adriana? Sabe o que tinha dentro?
- Claro! Fui eu quem botou no envelope... Dona Mirella s tinha deixado com meu pai um papel solto com um autgrafo. Alis, dois - dela e do seu Augusto. E como 
era eu quem ia entregar, e a gente ia para a casa da Cntia, eu fiquei com medo de sujar ou amassar o papel e botei num envelope. Marina, voc matou a charada! Foi 
da que surgiu a tal prova documental!
Ficaram todos assanhadssimos:
- Um papel em branco e assinado? Claro que foi isso...
- Era s preencher com o que quisesse...
- O que ser que a Adriana escreveu acima da assinatura?
Comearam todos a especular, enquanto o garom retirava os pratos e trazia os cardpios de novo.
- Quem sabe... um tiramis...
- Ficou maluco, Antnio? Agora vem falar japons? O que isso tem a ver com a Mirella?
- No tem nada. E no  japons,  italiano.  o nome de um doce que eles tm aqui. A maior delcia... - explicou ele,  atentamente estudando as opes de sobremesa.
- Acho que vou querer um sorvete. De pistache. E voc?
- Morango com creme...
Finalmente, o garom conseguiu acabar de anotar todos os pedidos.
- Que ar pensativo  esse, Jaj? - perguntou Cntia...
- Acho que seu pai vai gostar de saber que a Marina lembrou desse papel. Eu tinha esquecido. Mas agora lembro bem. Eu at tirei do envelope, desdobrei e mostrei 
 Maria...
- Que Maria?
- A sua empregada, Cntia... Eu ia deixar o envelope com ela, para no interromper a gente estudando. Ela ficou meio preocupada com a responsabilidade de tomar conta 
de um documento, eu mostrei a ela que no era nada demais. S um papel, sem nada escrito, a no ser uns autgrafos. Mas mesmo assim ela preferiu me chamar l em 
cima para entregar pessoalmente o envelope quando a Adriana chegou.
- E da? Que diferena faz? - quis saber Marta.

- E da que ela viu o papel, sabe como era - explicou Jaj. - E no  vizinha da Adriana, no precisa ficar com medo das ameaas, pode ser uma testemunha... Ou 
ento...
- Ou ento o qu?
- Sei l, vou falar com seu pai, Cntia. Mas acho que ele pode pedir uma percia no papel, pode dar para provar que qualquer coisa foi escrita depois de j ter as 
assinaturas. Eram uns autgrafos grandes, meio atravessados na folha. No  bem o tipo de assinatura que as pessoas do em documento, certinho, em cima de uma linha.
- E se no der para provar nada? - perguntou Bia.
- No sei... Mas a gente pode ganhar tempo. A Adriana pode ficar com medo, pode achar que vai ser desmascarada e entregar o jogo. Sei l... S sei que o tempo todo 
o pai da Cntia disse que no era possvel que ningum se lembrasse de alguma coisa
em favor da Mirella, para reverter a situao. E agora a Marina lembrou, ns todos lembramos. A coisa comea a mudar. Podemos ter uma testemunha. E mesmo que no 
haja provas, h indcios...
- Puxa,  falou  o  advogado... - brincou  o Codaque.
- ... O Justiceiro est ficando mais sofisticado... - concordou Rafael. - De tanto conviver com o doutor Menezes, acaba no tribunal...
- Quem  o doutor Menezes?
- O pai da Cntia e do Antnio, cara... O advogado da Mirella... O mestre do Justiceiro...
E j iam comear o velho coro de Ju-ju! Ju-ju! Jujul, quando o garom apareceu com uma surpresa encomendada pela me da Marina, um bolo de chocolate cheio de velas, 
logo classificado pela Cntia de "o maior mico", mas com o efeito imediato de desencadear palmas, assovios e cantorias de parabns, encerrando qualquer conversa 
naquele aniversrio que j estava com falatrio demais.

10. Um presente da memria

marina no foi a nica a se lembrar de alguma coisa que ajudasse.
Algumas semanas depois, outra lembrana ocorreu  prpria Mirella. Num momento em que estava se sentindo muito injustiada, trada por algum a quem s tratara bem, 
comentou com o marido:
- E pensar que eu at consegui um lugar para o filho dela na creche!...
Epa! Como  que a memria da gente funciona desse jeito? s vezes esquece completamente de uma coisa, e depois, de repente, por um fiapinho de lembrana, desperta 
uma poro de coisas encadeadas. Pois foi isso o que aconteceu. Um presente da memria. Num instante, Mirella lembrou de uma poro de coisas. Lembrou de como a 
Adriana lhe pedira uma carta para atestar na creche que ela trabalhava fora e no tinha com quem deixar o filho pequeno. E de como a empregada insistira em que devia 
ser uma declarao de que ela j estava naquele emprego havia um ano. Claro! Esse devia ser o tal documento que a incriminava! Um atestado falso, que ela mesma redigira 
no computador e assinara - como se fosse 
uma idiota, na maior boa f, sem nem pensar no que estava fazendo... Mentindo, reconhecia. Mas para ajudar algum, uma me que precisava trabalhar.
A memria da Mirella trouxe muitas outras coisas  sua cabea. Uma lembrana do av, de quando ela era pequena, dizendo que nunca se assina nada sem ler, sem ter 
certeza de que se est de acordo com aquilo... Falando que o bom nome  o maior tesouro que uma pessoa pode ter, um atestado de honra... Coisas to antigas, perdidas 
no tempo, lembranas de quando ela no vivia distribuindo autgrafos a torto e a direito, mas era s uma menininha de cabelos cacheados, que sentava no colo da av 
para ouvir histrias ou brincava de cavalinho, encarapitada nos joelhos do av... Devia ter aprendido, seguido o conselho, prestado ateno no que estava assinando... 
Mas agora vivia uma vida muito diferente, era adulta e famosa, no ficava a toda hora lembrando do av, estava sempre correndo de um lado para outro, com horrios 
apertados... e acabava fazendo uma bobagem dessas...
Mirella estava cansada, exausta de tanto trabalho, com dor de cabea de tanto aborrecimento. Com vontade de chorar, como quando era criana e toda vez que tropeava 
e machucava o joelho era consolada nos braos da me, que dava beijinho e dizia: "Vai passar..." Exatamente como ela mesma tinha feito havia pouco tempo, onde? Com 
quem? Lembrava de uma criana sendo consolada em seu colo, recentemente... Quando? Que criana?
E, de repente, lembrou!
Foi no comeo do ano, quando nasceu o nenm da Nilce. Depois que foi visitar a empregada e o beb no hospital, l no subrbio onde ela morava, ao voltar para casa, 
passou em frente a uma creche simptica. E teve a idia de j fazer uma reserva de vaga para o recm-nascido, para facilitar a vida da Nilce. Parou o carro, saltou, 
entrou. Foi logo reconhecida por uma das atendentes, que chamou todo mundo:
- Gente, olhem quem est aqui! A Rosy da novela...
- Mirella Morei? Nem acredito!
Era ela... J estava acostumada a ser chamada pelo nome da personagem. Mas o fato  que isso desencadeou uma corrida, todo mundo querendo chegar perto, dar beijo, 
pedir autgrafo. Na confuso, uma menininha levou um tombo e Mirella a pegou no colo, consolando. Mesmo depois, quando a diretora chegou e elas puderam conversar, 
continuou abraando a 
pequenina, que de vez em quando ainda dava algum soluo de fim de choro. E foi ali que Mirella descobriu que no precisava atestar tanto tempo anterior de trabalho 
da Nilce:
- No, senhora! A gente s quer uma prova de que a me trabalha. Basta a carteira profissional dela. Ou um contracheque.
- Mas ainda outro dia eu tive at que dar um atestado falso a uma diarista... Tive que dizer que ela j estava no emprego h mais de um ano, ela disse que toda creche 
exige...
- Ela enganou a senhora - disse, muito firme, a diretora. - Ningum pede isso. Na certa, estava querendo o documento para outra coisa. Talvez para abrir algum credirio, 
no sei... Talvez fosse isso, e a senhora no tenha entendido bem.
- No, era para uma creche, como esta. Do governo.
A diretora olhou bem sria para ela, talvez at com um ar de quem desconfiasse de um golpe, mas Mirella nem reparou. S ouviu a outra insistir:
-  algum engano. No pode ser. Que creche era, a senhora lembra? Se quiser, eu posso falar com a diretora e confirmar...
No, no precisava. Era s uma bobagem. Mirella no deu nenhuma importncia ao fato. Mas agora, de repente, lembrava. A diretora tinha sido to prestativa, to simptica... 
Quem sabe se ela no estava disposta a contar essa histria agora diante de um juiz? E havia outras testemunhas, todas as atendentes da creche que estavam em volta 
e assistiram. No
iam ter medo da Adriana, no a conheciam. Era s pegar com a Nilce o nmero de telefone de l, fazer um contato, falar com o doutor Menezes... Mais ainda, podia 
ver no computador a cpia da declarao, o nome da creche a que estava dirigida, conferir por l se realmente tinham pedido o documento. Ia ser possvel caracterizar 
a m f da Adriana. Com essa lembrana, as coisas melhoravam...
No fim das contas, nem foi preciso que a diretora e outra moa da creche falassem, embora elas estivessem loucas para ajudar e tivessem se disposto a ir ao tribunal, 
com a maior boa vontade.
No dia da audincia, quando Adriana chegou com o advogado dela e viu que Mirella estava acompanhada de vrias testemunhas, ficou com medo. Cochichou 
no ouvido dele e saiu. Na hora em que o juiz chamou para entrarem na sala, ainda no tinha voltado. Na ausncia dela, a audincia foi cancelada. O processo foi 
arquivado. E pronto. Muito mais rpido e simples do que se esperava. Para falar a verdade, deu at uma certa frustrao na torcida - porque estava a turma toda do 
prdio aguardando o desenlace, como se fosse um daqueles filmes de julgamento em tribunal. Queriam discusses, advogados sensacionalmente esfregando provas na cara 
da Adriana, testemunhas-bombas desmentindo depoimentos, coisas assim... Aquele era um final meio chocho, depois de tanta expectativa. Apesar do alvio, que era real.
O doutor Menezes achou graa na reao do pessoal. Disse que na realidade as coisas so muito diferentes desse sensacionalismo do cinema. E esse tipo de resultado 
 muito mais comum do que imagina quem est de fora. Alm disso, lembrou que sempre
seria possvel, a qualquer momento, o advogado dela entrar com outro processo. Explicou que s vezes se usa essa ttica, para vencer pelo cansao e acabar conseguindo 
um acordo de qualquer jeito: a pessoa paga s para no se chatear mais. Uma forma de chantagem como outra qualquer. Podia ocorrer a mesma coisa. Mas at hoje isso 
no aconteceu.
S que essa histria toda teve algumas conseqncias.
A primeira foi que a Mirella ficou muito agradecida aos meninos e meninas do prdio - principalmente Jaj e Marina - por terem se mobilizado para ajud-la. Fez 
uma reunio na casa dela para eles e at convidou alguns colegas de trabalho. O maior sucesso, claro. A turma toda de bate-papo com o pessoal da televiso... O assunto 
rendeu por vrios dias.
Outra conseqncia foi que, alguns dias depois, o doutor Menezes uma noite disse aos filhos na mesa do jantar:
- Esse colega de vocs, o Jalson, filho do seu Nilson... Vocs sabem o que ele pretende fazer na vida?
- Sei l... - brincou o Antnio. -, pela quantidade de trofus que ele est colecionando, acho que ele quer ser campeo mundial de surfe... Mas quem deve saber  
a Cntia...
- A Cntia? Por qu?
- Porque eu  que convivo mais com ele - respondeu a menina. - A gente  da mesma turma no colgio, s vezes estudamos juntos...
- E ele  bom aluno?
- timo! - respondeu ela, entusiasmada.
E desatou a fazer elogios ao Jaj, a contar como ele fazia redaes excelentes, como tinha sido o responsvel pela boa nota do grupo no jri simulado de Histria...
- Jri simulado, ? - repetiu o pai dela. - Interessante...
- ... - riu o Antnio. - Parece que ele tem mania de justia. Tem at um apelido engraado na escola, o Justiceiro. Ou Juju... O Rafael disse que ele gagueja quando 
fica nervoso, e fica repetindo que no  ju-ju-ju-justo...
-  porque ele  tmido... - defendeu Cntia.
-  tmido, mas  muito esperto - disse o doutor Menezes. - Em todo esse episdio do processo da Marina eu pude ver que ele  um garoto inteligente, observador... 
Tive muito boa impresso dele.

Cntia engoliu em seco. O pai continuou:
- Queria conversar um pouco mais com ele. Voc podia pedir que ele desse um pulo aqui em casa um dia desses para a gente bater um papo? Esta semana, no, que eu 
estou sem tempo. E tambm no tenho pressa. Mas no comeo do ms que vem, pea a ele para vir falar comigo.
- Esta semana ns tambm estamos enrolados. Temos  que  entregar  ao  Veloso  o  trabalho  de Portugus sobre o livro. Quer dizer, o Jaj j deve ter acabado de 
ler uns dois livros mais do que precisa. E, se duvidar,  capaz de j ter escrito tudo. Ele adora ler, sempre est na frente dos outros nesse trabalho e ainda fica 
sugerindo o que a gente deve ler.
O pai se serviu de mais bife, enquanto perguntava:
- E o que  que voc est lendo?
- Este ms, Vidas secas.
- E est gostando? Ela hesitou um pouco:
- Gostando, estou. Fico muito comovida com a vida daquelas pessoas. Mas prefiro livro que tem histria de amor, como Mar Morto, que eu li no ms passado. Mas depois 
acho que vou ler o que a Marina est lendo agora, porque ela est adorando - um tal de Capito Rodrigues...
- Um certo Capito Rodrigo  uma parte de um livro belssimo, O tempo e o vento - corrigiu o pai, sorrindo. - Boas leituras... E  isso tambm o que o Jalson est 
lendo? Voc sabe o que ele costuma ler?
- Ih, at eu, que mal encontro com ele, sei o que o Jaj anda lendo este ms... - comentou Antnio. - Ele s fala nisso. Um tal de Macunama que, pelo jeito,  um 
livro doido...
- Mas ele est adorando... - disse Cntia.
- Impossvel no adorar Macunama... - disse o doutor Menezes pensativo. - Acho at que era um livro que eu preferia no ter lido...
E diante do olhar intrigado dos filhos, completou:
- ... s para ter a grande alegria de ler pela primeira vez, e descobrir o Macunama, poder dar boas gargalhadas com todas as surpresas, em cada pgina do livro. 
Sabem de uma coisa? Deixem o Jalson acabar de ler o Macunama... Depois, quando eu for conversar com ele, a gente aproveita e troca tambm umas idias sobre o livro...

11. Uma surpresa e um monte de beijos

Parecia que tudo acontecia ao mesmo tempo. Uma poro de coisas para resolver e fazer. Bem que Jaj tentou fazer uma lista. Resumida:
Entregar um monte de trabalhos da escola.
Estudar para as provas finais.
Preparar documentos para procurar emprego.
Alis, procurar emprego propriamente dito.
Passar na casa da Cntia para ver o que o pai dela quer.
Acabar de consertar a prancha do Codaque.
Comprar mais resina para consertar outras duas pranchas da fila de espera.
Dar um jeito de conseguir pelo menos uma cala nova para poder ir  cerimnia de formatura.
Coisas demais! S se no dormisse. Ou se o dia tivesse mais de 24 horas...
Tentou botar um pouco de ordem naquela confuso mental. Tudo ao mesmo tempo no era possvel. Em primeiro lugar, a escola. Sem se formar, tudo o que fosse de emprego 
ficava prejudicado. Portanto, documentos e emprego podiam ficar para uma etapa seguinte. 
Para comprar a cala nova precisava de dinheiro - portanto, tinha que fazer primeiro todos os consertos. E para comprar mais resina para as outras duas pranchas 
precisava antes receber a grana do Codaque - ento era urgente acabar esse conserto. Passar na casa da Cntia era coisa rpida, podia ser logo mais  noite, porque 
agora o doutor Menezes estava no trabalho...
Ento, a primeira providncia era resolver os problemas de Matemtica. Em seguida, fazer a redao sobre o livro (ainda bem que j tinha lido todo). Essas duas coisas 
eram para o dia seguinte. Depois, comeava a estudar para a prova de Cincias, que era a primeira, logo na segunda-feira. No fim da tarde, ia at a oficina e terminava 
a prancha do Codaque, enquanto ficava de ouvido atento ao elevador, vigiando a chegada dos moradores, para poder subir logo que o doutor Menezes chegasse.
Na verdade, estava era achando difcil se concentrar em qualquer coisa. Porque o tempo todo a sua cabea estava tomada por uma idia nica, o resto era bobagem: 
sabia que essa era sua ltima semana de aulas mesmo. No a ltima do ano, como para todos os colegas. Mas na certa a ltima da vida.
O pai j tinha conversado muito a srio com ele, e Jaj entendia. No podia mais ficar naquela vida mansa de estudante. Precisava trabalhar para dar uma ajuda. Principalmente, 
para dar um alvio  me, que estava muito sacrificada e poderia ficar em casa se ele colaborasse com o sustento da famlia. Com o primeiro grau completo, j podia 
tentar uma
boa colocao em algum lugar. Sabia disso havia muito tempo. E estava louco para ser mais til em casa, com um ganho mais regular do que o dos consertos de prancha. 
Os pais estavam orgulhosos porque ele ia se formar, tinha estudado muito mais do que eles, ia seguir mais adiante na vida. Estava na hora de deixar para trs as 
brincadeiras de garoto e passar a encarar a vida como homem. Dava at uma alegria ver que estava preparado para isso.
Mas, por outro lado, tinha que reconhecer que tambm dava muita tristeza ver que no ia poder continuar a estudar. Mais que tristeza, uma certa raiva. Todos os colegas 
iam em frente. E ele ia ficar pelo caminho. No queria ficar bancando o revoltado, mas no conseguia deixar de pensar que no era justo. Logo ele, que precisava 
tanto de mais estudo do que os outros. Porque, afinal de contas, j comeava a vida em desvantagem... No tinha pai rico, no vivia numa casa cheia de livros para 
ler o que quisesse, no viajava a toda hora e voltava sabendo mil coisas novas, nunca ia herdar nada, no tinha famlia influente e cheia de amigos importantes para 
mais tarde conseguir timos empregos... Todo o seu futuro ia depender do que ele mesmo conseguisse, com seus estudos, sua garra, suas qualidades. E sem segundo grau 
ia ficar difcil. Por tudo isso, queria pelo menos garantir que se formava com timas notas. Podia fazer diferena na hora de procurar trabalho.
S que a cabea ficava quente com todas essas idias rodando. Fervia, mesmo. Difcil se concentrar no estudo.
Mas devia estar um pouco concentrado. Porque de repente reparou que a campainha da porta estava
tocando com insistncia e ele nem tinha notado. Foi abrir. Era a Nilce.
- Oi, tudo bem?
- Tudo certo. Dona Mirella mandou um recado para voc.
- Para mim? - repetiu ele.
- ...   ela   est   querendo   falar   contigo. Perguntou se voc pode dar uma passadinha l ainda hoje.
Mais essa! Agora mesmo  que no ia conseguir comear a estudar para a prova de Cincias...
- Pode ser mais tarde?
- Pode... Ela no vai sair. Mas tem que ser hoje... Amanh ela e o seu Augusto viajam para uma filmagem no Cear.
Que jeito? Tinha que ir. Voltou ao caderno de Matemtica, tentando ser rpido. Passou depois para a redao de Portugus - tinha que caprichar, o Veloso era sempre 
exigente. Terminando, desceu para a oficina, trabalhou um pouco na prancha do Codaque, conseguiu acabar o que faltava. Bem a tempo, porque ouviu o barulho do elevador 
subindo at a cobertura. Tinha que ir falar com o doutor Menezes, j era para ter ido desde a vspera, tinha combinado mas se enrolou todo e no foi... Agora ia. 
No caminho passava na dona Mirella. E na volta ligava para o Codaque para avisar que o conserto estava pronto.
Tocou a campainha dos fundos do 201, foi a prpria Mirella quem veio abrir.
- Entre, Jaj, fique  vontade...
Ficar  vontade, como? Aquela mulher toda bonita e elegante, com aquela cara linda que vivia nas novelas e revistas... Ficou parado no meio da
cozinha, mas ela seguiu adiante, chamando, e ele teve que ir atrs. Passaram para a sala. Ele no sabia o que fazer. Sentou na poltrona que ela indicou, era macia 
demais, afundava, as pernas dele parece que ficavam mais compridas, sobrando.
- Quer tomar alguma coisa? Uma gua? Um suco? Um cafezinho?
- No, senhora, obrigado... No precisa ter trabalho...
Como  que ele ia tomar cafezinho? Segurar uma xcara? Estava todo sem jeito, como se de repente tivesse umas quatro mos. Todas esquerdas.
- No mesmo? No d trabalho nenhum. A Nilce deixou pronto antes de sair. Vou pegar a garrafa   trmica,   voc   fica   conversando   com   o Augusto.
O marido dela j vinha entrando, sempre simptico, com ar de quem estava continuando uma conversa interrpmpida pouco antes:
- E a? Gostou da proposta?
- Que proposta? - repetiu Jaj, sem entender. De l de dentro da cozinha veio a voz da
Mirella:
- Ainda no contei nada a ele. Vai falando voc...
E o Augusto foi falando:
- Pra comear, era bom a gente saber o que voc achou da proposta do Menezes...
- No estou sabendo de proposta nenhuma.
- Voc no esteve com ele ontem?
Sem jeito, Jaj se mexeu na poltrona, trocou de posio e explicou:
- No, quer dizer, era para eu ter ido l na casa dele, estava combinado, mas eu estava com muita
coisa para estudar, perdi a hora... Ento eu falei com a Cntia, pra saber se a gente podia deixar para outro dia... Quer dizer, ficou para hoje... Eu vou l agorinha 
mesmo, quando sair daqui.
Mirella vinha entrando na sala, com uma bandeja, trs canequinhas e uma garrafa trmica.
- Ele no est sabendo de nada, Mirella - explicou Augusto. - S vai passar l no Menezes agora.
- Ento no adianta a gente conversar antes, porque uma coisa depende da outra... E quem tem que falar primeiro  o Menezes, ele fazia questo, a gente no pode 
se precipitar.
- Pois ...
Ela passou uma canequinha com caf para o marido, outra para o Jaj, explicando:
- A gente no toma com acar, mas voc pode se servir  vontade...
E se derramasse caf no estofado quando ele comeasse a se mexer naquela poltrona molenga e fofa, para chegar perto do aucareiro? Melhor tomar sem acar tambm... 
Mas era danado de amargoso... Ficou dando uns golinhos pequenos, para disfarar. Era at engraado, os trs em silncio na sala, naquela noite de vero que ia comeando.
De repente, a Mirella perguntou:
- Voc disse que est indo at a casa do Menezes agora?
- Neste instante - confirmou ele. - Agorinha mesmo.
- Ento vamos juntos - decidiu ela. - E a gente prope tudo de uma vez. Jpala logo tudo ao mesmo tempo, agora mesmo.
Tudo-ao-mesmo-tempo-agora? Jaj achou que estavam gozando com a cara dele. Mas no parecia.
Os dois atores estavam srios, j se pondo de p e caminhando em direo  porta de entrada.
Jaj foi com eles, aliviado por poder deixar para trs aquela canequinha de caf sem acar. Num minuto estavam os trs l em cima, recebidos entre sorrisos pela 
Cntia, o pai, a me e o irmo. Todo mundo junto. E antes que ele conseguisse entender o que estava acontecendo j tinha ouvido a tal proposta. Ou melhor, as propostas, 
porque Augusto e Mirella tambm tinham outra.
Em resumo, era o seguinte.
No decorrer do processo da Adriana contra a Mirella, o pai da Cntia tinha ficado encantado com a dedicao do Jaj. Como ele mesmo disse:
- Voc tem um extraordinrio sentido de justia, Jalson, e isso  uma coisa rara. Em todo esse episdio, voc demonstrou possuir algumas qualidades muito apreciveis 
-  solidrio,  generoso, tem iniciativa... Enfim, fiquei muito bem impressionado com sua atuao, rapaz... Ela foi mesmo decisiva para a boa soluo do caso... 
Voc tem futuro...
Pelo jeito, ficou to impressionado que comentou com a famlia. E ento, como d para se imaginar, ouviu da Cntia os mais rasgados elogios ao Jaj. Mais ainda: 
comentou tambm com a Mirella, dizendo a ela que estava convencido de que deviam a vitria, em grande parte, ao Jaj. E, em conjunto, resolveram dar um presente 
a ele.
Sem graa, o garoto protestou, gaguejando um pouco:
- Obrigado, mas no precisa... Eu no fiz nada de-de-mais. E s fiz porque eu que-que-queria ajudar, porque eu achei que no era ju-ju-justo...
Antnio no resistiu. Prendendo o riso, exclamou:
- Isso, Juju!
Ningum prestou ateno. A no ser a Cntia, que quase fuzilou o irmo com os olhos. Mas o pai dela continuou explicando que queriam dar um presente a ele, o Natal 
estava se aproximando e ento resolveu perguntar a Cntia se sabia de alguma coisa especial que o Jalson quisesse muito. Uma prancha nova? Uma bicicleta? Antnio 
chegara a sugerir um aparelho de vdeo. Mas a menina insistira que no era nada disso, que eles no conheciam bem o colega. E fizera uma revelao surpreendente.
- Eu disse a eles que a coisa que voc mais quer no mundo agora  no ter que parar de estudar... Estou certa?
Claro que estava. Mas isso era impossvel. E Jaj sentiu uma coisa esquisita vindo se misturar a todos aqueles sentimentos que j estavam na maior confuso dentro 
dele. Sentiu uma ternura imensa pela Cntia, vendo que ela conhecia to bem o que ia pelo seu corao e sua cabea. Mas sentiu tambm uma vergonha sbita de que 
aquilo estivesse sendo dito em pblico, na frente de todo mundo. E ainda sentiu um calor subindo pelo rosto, como se estivesse ficando muito vermelho. Nem tinha 
coragem de encarar todas aquelas pessoas ali, naquela sala enorme, olhando para ele e discutindo seus problemas mais ntimos.
Ficou de olhos baixos e em silncio, mas respondeu com um gesto de cabea, confirmando.
O pai da Cntia continuava falando. Contou como soube que o Jaj precisava trabalhar. E como teve a idia de cham-lo para trabalhar no escritrio de advocacia dele 
- estavam precisando de um
auxiliar de servios gerais, e o horrio podia ser flexvel, dava para sair cedo e poder estudar  noite. J havia um outro auxiliar trabalhando l, um deles podia 
entrar mais tarde e ficar at mais tarde - os dois dividiriam o horrio. Contou tambm que Cntia e a me tinham ido falar com dona Odete, a diretora do Ea de Queirs, 
e ela explicou que, embora o Ea no tivesse curso noturno, ela poderia encaminhar o Jalson a outra escola, atestando que ele era um excelente aluno e merecia uma 
bolsa de estudos para fazer o segundo grau  noite. Estava garantido. Logo depois da formatura, ele s tinha que passar l e fazer a matrcula.
Jaj foi ouvindo aquilo tudo sem nem conseguir acreditar direito. Seria possvel? Assim, em cinco minutos, numa conversinha no prprio prdio dele, resolvia todos 
os seus problemas?
Mas agora j era o Augusto quem tinha comeado a falar.
- Gostou? - perguntou ele.
- Ccclaro... - respondeu Jaj. - Muito obrigado. Nem sei como agradecer... Eeeu..
- , mas quem no gostou fomos ns... - disse o Augusto.
A mesmo  que o Jaj no sabia o que dizer.
- Explique direito, Augusto, assim o rapaz no entende...  - interrompeu  Mirella.  -    que  o Menezes foi to eficiente e resolveu tudo to rpido, que a gente 
ficou de fora. No fizemos nada para voc. E, na verdade, ns  que tnhamos que lhe agradecer e fazer alguma coisa... Se no fosse por voc, nem sei o que teria 
acontecido comigo...
- No, mas que bobagem... - comeou Jaj e se interrompeu, pensando: "Puxa, eu no dou uma dentro! Acabei de chamar Dona Mirella de boba..."
- Bobagem, nada! - atalhou Augusto. - J esqueceu como todo mundo ficava tirando o corpo fora sem querer ajudar? No lembra como ns ficamos na situao absurda 
de no ter culpa mas no ter como provar? E que voc, que no tinha nada com isso, foi quem saiu atrs de uma soluo?
- Por isso... - continuou Mirella, sorrindo - quando eu soube pelo Menezes que ele e a Cntia tinham essa proposta para voc, resolvi entrar tambm no pacote de 
surpresas. E como as aulas no colgio s vo recomear no fim de fevereiro, ns, o Augusto e eu, vamos lhe dar um curso de frias, para voc aprender a digitar e 
lidar com um computador.
- Puxa, obrigado!
Jaj ia gaguejar, ia dizer que no precisava, ia disfarar a emoo e comentar que j sabia digitar um pouco, que tinham tido umas aulas no colgio, que ele sempre 
mexia no computador do Rafael... Mas sabia que aprender mais podia ser fundamental. E no agentou. Era sentimento demais, l dentro do peito. Parecia que ia estourar. 
Foi dando um n na garganta dele, e os olhinhos sorridentes da Cntia brilhavam bem perto, como estrelas, piscando, chamando, chamando...
Quando viu, j tinha feito! Tinha dado um abrao apertado nela, de comemorao. Incontrolvel. Igual a jogador de futebol quando faz gol. E um BEIJO! De verdade! 
Na frente de pai, me, irmo, toda a famlia! O jeito foi disfarar rapidamente, virar para o lado e dar um beijo e um abrao tambm no Antnio. Nem sabia de onde 
tirou a presena de esprito para isso. E num instante aquela reunio virou uma profuso de abraos, e ele estava sendo beijado por Mirella Morei em pessoa! Lindona 
como na televiso... S que ao vivo, morninha e perfumada... Era demais!
Desmaiou.
No  exagero nem modo de dizer, no. Apagou de emoo. Mesmo. Caidao no cho, como o Antnio contaria mais tarde.
Voltou a si em poucos segundos, deitado no sof da sala do doutor Menezes, todo mundo em volta, todos falando ao mesmo tempo. Trouxeram gua para ele beber, sal 
para botar na boca, mandaram sentar e abaixar a cabea...
- Vai passar...
- J passou, pronto!
- Foi o calor...
- Com um banho frio e um caf forte ele fica bom...
Morria de vergonha. Morria de alegria.
Ainda com o corao se debatendo no peito como um peixe na rede, foi levado at em casa pelo Antnio e por Augusto Csar em pessoa! Mas eram seus amigos, preocupados 
com ele. Dona Jandira abriu a porta, levou um susto ao ver o filho apoiado nos outros, meio carregado. Mas Augusto j explicava tudo, Antnio contava as novidades, 
algum abriu a ducha fria no banheiro, num instante ele estava embaixo do chuveiro, renascendo, at cantarolando, sentindo que a alma estava leve, voava como aquelas 
gaivotas que ele via planando no cu enquanto esperava onda, sentado em cima da prancha. Solta, livre, mas prontinha para mergulhar exata em cima do alvo quando 
precisasse.
No ia deixar passar uma oportunidade dessas de jeito nenhum. Estava feito na vida. Agora s dependia dele.
E ele, Jalson da Silva Magalhes, se garantia. O mundo que se preparasse, porque o Jaj ia descer nessa onda que crescia e se aproximava, veloz. Num movimento exato, 
de gestos precisos, ele ia se equilibrar, de p, e ir at a praia, abrindo seu prprio caminho na imensido daquele mar. Para ganhar seu maior trofu.

12. Um ano com trs Natais

Dava para ter certeza de que todo mundo tinha tido a mesma idia. Ou a mesma falta de idia. A quantidade de gente que se acotovelava dentro da loja de discos provava 
que, com toda certeza, um CD ia ser o presente mais popular naquele Natal. Jaj estava quase desistindo. Difcil escolher, no conhecia bem o gosto da Marina. Se 
na hora do sorteio do amigo oculto tivesse tirado um papelzinho com o nome da Cntia ou do Rafael, sabia exatamente que tipo de msica cada um dos dois gostava 
- algo danante para ela, um rock bem barulhento para ele. Mas a Marina era mais difcil... Primeiro tinha pensado em dar uma gua-de-colnia, ou uma caixa de sabonetes 
cheirosos. Mas era muito pessoal, e sempre corria o risco de que ela no gostasse justamente daquele perfume. Acabou resolvendo pelo CD - at mesmo por ser mais 
fcil de trocar.
De repente, no meio daquela gente toda, ele viu a Bia, despenteada, esbaforida, toda carregada de sacolas. Que sorte! Podia dar uma sondada com ela e tentar saber 
o gosto musical da amiga.
Quando Jaj tentou chegar perto, ela sumiu. De repente? Onde podia ter se metido? O que ele nem desconfiava era que a menina estava ali justamente escolhendo o 
presente dele, j com um CD na mo, a caminho do balco, para ser embrulhado. E quando o avistou no meio da multido se abaixou atrs de um grupo para no ser vista, 
fingindo que estava procurando alguma coisa numa prateleira baixa, mas na verdade se escondendo dele, para no estragar a surpresa do presente.
Irritado, Jaj saiu da loja. Resolveu dar mesmo uma lavanda a Marina. A perfumaria estava mais vazia e ele ia l de qualquer jeito, porque havia uma promoo simptica 
de uma tal bolsinha de maquiagem toda equipada, que a me vira num anncio no jornal. Do jeito que ela tinha suspirado e falado, era bvio que gostaria de ter uma. 
A ficava s faltando um presente para seu Nilson. Jaj pensara numa caixa de ferramentas que tinha visto de relance numa loja, tinha que ir l para ver o preo. 
Mas tinha que ser nessa mesma tarde, porque no queria ter que voltar mais ao shopping antes do Natal.
Antes da perfumaria, passou em frente  vitrine de uma butique e viu umas agendas. Lembrou que todo ano a Marina usava uma dessa marca. O preo estava dentro do 
oramento dele. Pronto, resolvia! Pelo menos sabia que era uma coisa que ela adorava.
Agora s faltavam os presentes dos pais. Na verdade, no devia ter deixado tudo para a ltima hora. Mas esse tinha sido o ms mais louco da sua vida, mais cheio 
de confuso, de idas e vindas. Para comear, o verdadeiro Natal dele tinha sido em novembro
- mesmo que Papai Noel existisse, era impossvel a essa altura da vida ganhar presente melhor do que o emprego no escritrio do doutor Menezes, a bolsa para o curso 
noturno e a matrcula no curso de informtica. Pelo menos tinha sido essa a sensao que o acompanhou desde aquela noite de tantas surpresas at o dia em que foi 
ao colgio buscar o resultado das provas e viu que tinha passado com timas notas. Vrios dias seguidos em que se sentiu pairando no ar, de tanta felicidade, e afundando 
na terra, de tanto cansao de estudar sem parar.
Mas a a situao toda deu uma cambalhota e revirou de pernas para o ar. Na secretaria da escola informaram que dona Odete queria falar com ele e os pais antes de 
liberar os papis para a transferncia e matrcula no curso noturno.
Por causa disso, tudo mudou de novo. At o calendrio, por incrvel que parea.
No dia e hora marcados, l estavam os trs. Dona Odete abriu a porta da sala, mandou que eles sentassem em trs cadeiras que j estavam arrumadinhas de um lado da 
mesa, esperando. Passou para o outro lado, sentou-se diante de umas pastas com papis, abriu, comeou a olhar e foi puxando uma conversa mole:
- Bom, como vocs sabem, a Cntia e a me dela estiveram aqui, h algumas semanas, pleiteando que eu fizesse uma indicao para que o Jalson pudesse ser bolsista 
em outra escola...
- Foi idia delas... - explicou seu Nilson, se desculpando. - Ns no pedimos nada, nem sabamos que elas vinham aqui.
- Bem que eu imaginei - disse a diretora. - Mas agora sabem... E o que acham?
Seu Nilson hesitou um pouco antes de responder:
- Bom, ns no queramos incomodar ningum. Mas j que elas pediram (e depois disseram que estava tudo resolvido),  ns achamos muito bom. Ficamos muito agradecidos.
- Isso mesmo... Muito obrigada - confirmou dona Jandira. - Vai ser muito bom.
- Vocs tm certeza? - insistiu dona Odete. - De minha parte, eu tenho srias dvidas. Ainda mais agora que conversei com os professores e a coordenadora, fui consultar 
com mais ateno a pasta do Jalson, ver todo o histrico escolar dele...
Os trs se entreolharam. No sabiam o que dizer. No entendiam aonde ela queria chegar. Estava arrependida? Retirando a bolsa? Por que, se as notas do Jaj tinham 
sido to boas?... No era justo, pensou ele. E j se preparava para comear a protestar, apesar de toda a timidez, quando ela continuou:
- Na verdade, quanto mais eu penso, mais acho que essa idia no  muito boa. O que  que voc acha, Jalson?
- A senhora me desculpe, mas eu no estou de acordo com essa sua dvida - disse ele, surpreendentemente firme, sem nenhuma gaguejada. - A coisa que eu mais quero 
 no ter que parar de estudar quando comear a trabalhar. E esta  minha nica oportunidade, no est certo me tirarem isso.
Ela sorriu e disse:
- Calma,  ningum  quer  prejudicar voc, Jalson. Acho que no me expliquei bem. O fato  que a avaliao que os professores fazem do seu desempenho  excelente. 
No apenas nos estudos, mas tambm na sua interao com os colegas, na
sua disponibilidade para o grupo, voc foi sempre um excelente aluno, um timo amigo, algum que no gostaramos de ver longe daqui... No estou querendo lhe tirar 
nada, mas no creio que sua nica oportunidade esteja em sair do Ea, ir trabalhar o dia inteiro e passar para um curso noturno.
Seu Nilson pensou em perguntar: "Ento a senhora tem algum bilhete de loteria premiado? Um carto da Sena com todos os palpites certos? Que outra oportunidade pode 
ser essa?"
Mas no disse nada, para no faltar ao respeito.
Dona Odete continuou:
- Depois de examinar tudo isso com cuidado, resolvi chamar vocs aqui e fazer outra proposta, em nome do Ea de Queirs. Ns queramos que o Jalson continuasse 
como nosso bolsista e fizesse o segundo grau aqui,  em nosso curso regular,  na mesma turma em que vem estudando.
- Mas ele tem que trabalhar, ajudar em casa, chega de viver  toa, como se fosse filho de rico... - protestou seu Nilson, criando coragem.
- Se no me engano, ele j trabalha... - argumentou ela. - O professor de Educao Fsica contou que ele tem uma oficina e conserta pranchas.
- Isso no vale nada! No  a mesma coisa que um emprego! - exclamou seu Nilson. - No tem carteira assinada, salrio certo no fim do ms, fundo de garantia... no 
tem segurana nenhuma.
- Mas deu para ele comprar o som dele, a cala nova que estava querendo, ajudar a trocar o fogo velho... - interferiu dona Jandira, timidamente.
Dona Odete fez um gesto com a cabea, concordando silenciosamente com ela, como se as duas mulheres no precisassem falar mas estivessem esta-
belecendo alguma aliana que Jaj percebeu, mas no entendeu.
Seu Nilson continuava, num tom de voz meio irritado:
- Este menino precisa  trabalhar. J estudou muito. Mais do que o av, os pais, os tios dele. Agora est na hora de comear a ajudar.
Tranqilamente, dona Odete respondeu:
- Se no me falha a memria, esse trabalho seria no escritrio do pai da Cntia, no? Lembro que a me dela falou nisso quando esteve aqui...
- Isso mesmo, com o doutor Menezes - confirmou seu Nilson.
- E seria um trabalho com um horrio adaptado, no? Quer dizer, ele entraria cedo e sairia cedo para estudar de noite...
- Exatamente.
- Pois eu acho que ns podemos sugerir ao doutor Menezes que o Jalson continue estudando aqui de manh e trabalhe apenas num meio-expediente, sem prejudicar os 
estudos. Parece-me que o escritrio dele oferece essa possibilidade de horrio flexvel. E ele, sinceramente, est interessado em ajudar o seu filho, seu Nilson. 
Acho que essa seria uma alternativa vivel e bem mais interessante. Alis, seria no! . Tenho certeza. Tomei a liberdade de me adiantar e consult-lo por telefone 
e ele disse que  perfeitamente possvel, caso vocs prefiram, em vez do dia inteiro de trabalho, como ele havia sugerido - concluiu dona Odete, com firmeza.
Mas seu Nilson no tinha concludo.
- A senhora no me leve a mal, mas eu acho que tem gente demais se metendo na vida do meu filho, dando palpite, querendo resolver tudo. E no  do jeito que eu quero.
- O senhor tem razo, perdoe. Mas, por favor, poderia me dizer qual  o jeito que o senhor quer?
Jalson olhava de um para outro, seguindo o dilogo, como se fosse um espectador, assistindo a um filme ou novela, ou vendo uma partida de vlei, em que a bola ia 
de um lado da rede para o outro, a toda hora mudava a vantagem, mudava quem dava o saque, mas ningum fazia ponto.
- Eu quero um filho trabalhador. De verdade, responsvel, sem essa conversa de meio-expediente nem bico de consertar prancha. No botei o Jalson no mundo para virar 
um marmanjo preguioso, em aulinha pra c, aulinha pra l, e mais praia, e surfe, e festa, e cinema, enquanto o pai e a me se matam de trabalhar para sustentar 
essa vida mansa.
- Muito bem - disse dona Odete. - J sabemos o que o senhor quer. E o Jalson, o que quer?
- Eu quero trabalhar, ajudar em casa, retribuir um pouco do que meus pais tm feito por mim todos  esses  anos...  Principalmente  para  aliviar minha me, ela no 
precisar trabalhar, poder ficar em casa... - respondeu ele, como se tivesse estudado bem e estivesse respondendo direitinho a uma pergunta de uma prova, mais uma!, 
em que tinha que tirar uma nota boa.
- S isso? - insistiu a diretora.
Ele olhou para ela, sentindo um n na garganta. Sabia que o pai no ia gostar muito do que ia dizer, mas disse mesmo assim:
- No, senhora. Queria tambm poder continuar a estudar.
- Para qu? J estudou demais... - interrompeu o pai.
- Para qu? - repetiu dona Odete. - Explique a seu pai, Jalson, quem sabe se ele no entende?
- Para muitas coisas - respondeu ele. - Nem sei explicar direito. Para melhorar na vida. Para poder ter uma profisso melhor, uma vida profissional de verdade, uma 
coisa que eu goste mesmo de fazer, e no s uma preocupao com emprego e com dinheiro. Para poder garantir a meus pais uma velhice tranqila... e tambm para mais 
uma poro de outras coisas...
Houve alguns segundos de silncio. Ouviu-se ento a voz de dona Jandira, com uma doura que at parecia estar fazendo um carimho:
- Diz, meu filho... Que outras coisas so essas?  bom a gente saber...
-  tambm para os outros, me, no  s para a vida da gente. Eu quero um dia poder ajudar as
pessoas, como o Ea me ajudou dando a bolsa, como o doutor Menezes com o emprego, como dona Mirella e seu Augusto com o curso de informtica. Eu quero um dia poder 
estudar alguma coisa que me deixe ajudar muita gente ao mesmo tempo, no sei bem como, nem o qu. Mas assim como um professor faz, um jornalista, um advogado... 
Ajudando a acabar com o que no  justo. Eu gosto de consertar coisas, a senhora sabe. D uma alegria ver que um troo todo quebrado est funcionando de novo, que 
uma prancha toda empenada e torta ficou direita e ainda pode ser usada. Mas eu queria mesmo era poder fazer uns consertos mais importantes, ajudar o mundo a ficar 
mais direito. Mais justo, sabe?
Tomou flego e continuou, empolgado, vendo o olhar de aprovao da diretora:
- Eu acho que eu queria mesmo era consertar um pouco o mundo. Que ele ficasse to desempenado mesmo, que nem precisasse mais algum ter que ajudar os outros a estudar, 
como fizeram comigo - porque isso j ia ser uma coisa normal, natural. Quer dizer, qualquer criana que nascesse j sabia que ia poder estudar tudo o que quisesse 
sem ter que parar antes da hora. Que fosse s chegar numa escola e entrar. Que nem a gente faz no mar, ali grando, com lugar pra todo mundo. No sei se eu expliquei 
direito, se deu para entender, mas  meio por a...
- Deu, sim... - disse dona Odete, sorrindo. - Explicou muito bem. No imagino como algum poderia explicar melhor. E posso lhe garantir que o Ea de Queirs se orgulha 
de ter ajudado a formar um aluno assim.
Seu Nilson no parecia empolgado com todo aquele discurso. Comeou a falar:
- L vem voc com essas conversas de novo. Quantas vezes eu j lhe disse que no adianta querer dar murro em ponta de faca, que pobre no tem vez, que voc...
Mas foi inesperadamente interrompido por dona Jandira, agora conseguindo falar firme, mesmo
com sua voz suave:
- Espere a, Nilson. Voc j disse isso muitas vezes, eu sei, o Jalson tambm sabe. J ouvimos. Eu sempre fico ouvindo, no falo nada, no discuto essas coisas, 
voc  que  pai, voc resolve... Mas acontece que eu sou me. E tambm queria dizer agora o que eu quero para meu filho, gostei dessa idia de falar sobre isso, 
 muito importante.
- Pois fale,  ento - concordou ele,  meio emburrado.
- O que eu quero  que meu filho seja feliz - disse ela.
- E voc acha que ele pode ser feliz andando no meio de rico, com inveja dos colegas, querendo ter o que ele no tem, ser o que ele no ?
- Pai, eu no tenho inveja deles, nem quero ser o que eu no sou.
- Voc no  rico! - gritou seu Nilson. - Ou j se esqueceu disso? "
Dona Odete fez um gesto para ele falar mais baixo, ou ter mais calma. Mas agora quem tinha desatado a falar era o Jaj.
- Pai, eu quero  poder ser o que eu sou, voc no entende? Eu sou um garoto como os outros, com meus sonhos e meus problemas, igual a todo mundo. Tenho uma chance 
de estudar mais, eu quero. Se puder ser no colgio onde eu j tenho amigos, e que eu adoro, claro que eu quero mais ainda. Mas eu
quero muita coisa mais. Quero tambm ser til s pessoas, comeando por vocs, em casa. Quero trabalhar, para mame poder ficar em casa, quero...
- E quem disse que eu quero ficar em casa? - interrompeu a me. - Isso  coisa do seu pai, no sei quem enfiou essa idia na cabea dele. Eu adoro sair todo dia, 
ir para o meu trabalho, ter minhas colegas, conhecer uma poro de gente que passa pela minha caixa. E adoro ter o meu dinheiro no fim do ms, que depois que dou 
quase todo ao seu pai para ajudar nas despesas eu sempre fico com algum. E eu sei que fui eu quem ganhou. No preciso ficar pedindo pelo amor de Deus para ir ao 
salo cortar o cabelo ou comprar um baton novo ou dar um presente para minha irm, tendo que explicar por que estou querendo um trocadinho... Deus me livre dessa 
histria que vocs ficam falando a toda hora a, de ficar em casa sem fazer nada. Vai ser  fazendo muita coisa, isso sim, mas s pra vocs. Vou ficar s cuidando 
da comida de vocs, da roupa de vocs, de fazer a cama de vocs, sem nunca ter um tempo para mim, para minhas amigas, para conversar, me distrair e dar risada com 
as coisas da minha vida...
Seu Nilson levou um susto. S falava:
- Desculpe, eu no sabia... Eu juro que eu nem desconfiava...
- Pois agora est sabendo. Se o Jalson quiser trabalhar para ele mesmo, para ficar mais feliz, mais independente, ter o dinheirinho dele, comprar o que quiser, 
e tambm dar uma ajuda, timo! Mas trabalhar para eu poder ficar em casa, no! Quem no quer sou eu.
E diante de tantas surpresas desse dia, os planos do Jaj sofreram nova reviravolta. Por isso  que ele
pensou que foi mais um presente: ganhou a garantia de fazer o segundo grau no Ea de Queirs, com os amigos. Mas no perdeu o curso de informtica nas frias nem 
o emprego com o doutor Menezes - s que ganhando menos e trabalhando menos, em meio-expediente, das duas s seis da tarde. Enfim, a proposta de dona Odete, que ela 
levou adiante e concluiu com um argumento irrespondvel, naquele jeito de dar aula que ela usava quando reunia todo mundo no auditrio:
- Nosso pas anda muito cruel com nossos filhos... mas a gente no pode esquecer que criana tem que ser criana, brincar, ir  escola. E adolescente tem que estudar 
e se divertir, ir se formando para a vida, estar com os colegas, fazer esportes, namorar, ouvir msica, danar. Todos tm esse direito. Podem at trabalhar um pouco, 
se quiserem,  bom ir aprendendo isso tambm, brincando de gente grande, se preparando. Mas eu no consigo aceitar que isso seja obrigao. Eu sei que no  este 
o caso de vocs, mas explorao de criana, no. Assim no  justo!
Nem Jaj, quando atacava de Justiceiro, diria melhor.
Lembrando disso agora, o menino incluiu mais um presente em sua lista. Para dona Odete. Ia escolher um livro. Mulherzinha decidida, aquela! Assim como quem no quer 
nada, na maciota, foi conversando e fez uma revoluo na vida dele. At em casa as coisas estavam diferentes. Seu Nilson, mais atento com os outros. Dona Jandira, 
mais firme.
Isso no deixava tambm de ser um presente inesperado, nesse ano de tantos Natais. Uns trs, pelo menos. O de novembro em casa da Cntia, aquele na sala de dona 
Odete e o de verdade, que
ainda ia ser da a dois dias, com festa no playground e troca de presentes de amigo oculto, e mais uma ceia depois em casa. Igual a todo ano, ele j sabia. Comilana 
e presentada.
Mas depois viria um ano diferente. Uma nova etapa de vida. Quando tudo podia acontecer. Como naquela agenda que a balconista j ia embrulhar em papel bonito, enfeitado 
com lao de fita, e que ele ia dar  Marina na festa. E que mais tarde ela iria abrir pela primeira vez, com todas as pginas ainda  espera do que iria escrever. 
Ano novo, agenda nova.
Esperando a vez junto ao balco, Jaj se lembrou de Morte e vida severina, um dos livros que lera nesse ano. No s porque era uma histria de Natal bem brasileira, 
falando de todas essas injustias e esperanas que moram dentro da gente. Mas tambm porque nele o poeta Joo Cabral escrevera uns versos que vinham  sua memria 
nesse momento. E que ele resolveu escrever na agenda da Marina, enfeitando por dentro o presente que j ia ser embrulhado:
"Belo porque tem do novo O frescor e a alegria, Como o caderno novo, quando a gente o principia".
